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Bruno Altoé: a cannabis medicinal como aliada para permanecer no jiu-jítsu

Campeão mundial e pan-americano, o capixaba relata que o cuidado médico com canabinoides entrou em sua rotina após anos de lesões, dificuldades com o sono e ansiedade

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

07 de ago. de 2026

Atleta de jiu-jítsu sentado no tatame após o treino, em ambiente escuro com luz verde e âmbar

Há vitórias que começam muito antes do pódio. No caso do capixaba Bruno Altoé, a permanência no esporte passou por aprender a cuidar de um corpo submetido a anos de impacto, treinos intensos e lesões acumuladas. Campeão mundial de jiu-jítsu e vencedor do Pan-Americano da modalidade, o atleta conta que a cannabis medicinal se tornou uma aliada em sua rotina de recuperação — sempre a partir de uma decisão tomada depois de buscar informação e consulta médica.

A trajetória ajuda a colocar um rosto em uma discussão que cresce no esporte: o uso terapêutico de canabinoides não como atalho para performance, mas como parte possível do cuidado individual de atletas que convivem com dor, sono insuficiente, ansiedade e desgaste físico. O relato de Altoé é pessoal e não substitui evidência clínica nem avaliação profissional, mas mostra por que esse tema já não cabe apenas nas margens do esporte.

Do judô ao jiu-jítsu — e o peso das lesões

Altoé começou no judô aos 13 anos e migrou para o jiu-jítsu aos 25. Quando fez a transição, carregava uma série de lesões crônicas e descrevia o corpo como muito desgastado. Em 2021, durante um período de treinos nos Estados Unidos, observou atletas usando produtos à base de CBD em rotinas voltadas à recuperação, dor, estresse e ansiedade.

Ao voltar ao Brasil, pesquisou o assunto e procurou atendimento médico antes de iniciar o uso de medicamentos à base de cannabis. Em entrevista à revista Psicodelicamente, relatou benefícios percebidos na recuperação muscular, no bem-estar e no sono. Em 2024, já bicampeão pan-americano da IBJJF, voltou a afirmar que a terapia canabinoide o ajudava tanto no aspecto físico quanto na ansiedade dos dias anteriores às competições.

Esse ponto é central: trata-se da experiência relatada por um atleta, não de uma garantia de resultado. Resposta, composição do produto, dose, interações e riscos variam entre pessoas. A decisão clínica precisa considerar histórico de saúde, modalidade, calendário competitivo e regras antidoping aplicáveis.

Uma carreira construída com continuidade

Em março de 2023, Altoé venceu três lutas na categoria pesadíssimo e conquistou o Pan-Americano na Flórida. O resultado veio depois do ouro no Europeu da IBJJF, em Paris. No ano seguinte, conquistou novamente o Pan-Americano, superando três combates e conciliando a preparação de alto nível com trabalho e família.

Mais do que relacionar um tratamento a medalhas — associação que as fontes não permitem fazer —, sua história revela outra dimensão da alta performance: continuar disponível para treinar. Sono, recuperação, manejo de sintomas e saúde emocional influenciam a sustentabilidade de uma carreira, mas nenhum produto substitui planejamento, fisioterapia, nutrição, descanso e acompanhamento profissional.

O que a ciência permite afirmar hoje

O interesse de atletas pelo canabidiol cresceu mais rápido do que a produção de evidência específica em esportistas de elite. Estudos discutem potenciais efeitos do CBD sobre dor, sono, ansiedade e recuperação, mas ainda existem limitações importantes: amostras pequenas, doses e formulações diferentes, resultados nem sempre consistentes e poucos ensaios realizados em atletas de alto rendimento.

Por isso, o uso responsável começa por uma pergunta clínica — qual sintoma ou condição está sendo avaliado? — e não pela ideia genérica de melhorar performance. Também exige produto regularizado, procedência conhecida e acompanhamento para observar efeitos, ajustar a conduta e reduzir riscos de interações ou eventos adversos.

CBD permitido não significa risco zero no antidoping

A Lista Proibida de 2026 da Agência Mundial Antidoping mantém os canabinoides na classe S8 e os proíbe em competição, com exceção do canabidiol. Na prática, o CBD isolado não é proibido, mas outros canabinoides, incluindo THC, permanecem sujeitos às regras durante o período competitivo.

Existe ainda um risco relevante de contaminação ou rotulagem imprecisa. Um produto comercializado como CBD pode conter outros canabinoides. Para um atleta testado, isso pode resultar em exame positivo mesmo quando a intenção era exclusivamente terapêutica. O princípio de responsabilidade objetiva continua valendo: o atleta responde pelo que é encontrado em sua amostra.

Antes de usar qualquer produto, atletas devem consultar profissionais qualificados, confirmar as regras da federação e buscar orientação da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem quando necessário. Casos que envolvam substâncias proibidas podem exigir uma Autorização de Uso Terapêutico, avaliada segundo critérios específicos — prescrição médica, por si só, não equivale automaticamente a essa autorização.

A mensagem que fica fora do pódio

A história de Bruno Altoé não prova que cannabis gera títulos. Ela mostra algo mais honesto e útil: um atleta com uma carreira marcada por impacto e lesões encontrou, sob cuidado médico, uma estratégia que relata ter contribuído para continuar no esporte.

Entre o estigma e a promessa exagerada existe um caminho mais maduro: ouvir experiências reais, reconhecer os limites da ciência, respeitar as regras esportivas e colocar a saúde do atleta no centro. Para quem considera tratamento com cannabis, o primeiro passo não é comprar um produto — é conversar com um médico qualificado que possa avaliar o caso de forma individual.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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