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Tomás Levy, Tourette e cannabis: o que a história do campeão brasileiro de remo ensina

O relato do remador abre uma conversa necessária sobre autonomia, evidência clínica e o conflito entre tratamento e antidoping.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

03 de ago. de 2026

Remador em um single skiff durante treino ao amanhecer, com montanhas ao fundo

Tomás Garcia Levy convive com a síndrome de Tourette desde a infância. No remo, construiu uma trajetória de alto rendimento e chegou ao título brasileiro no single skiff. Fora do barco, tornou pública outra parte de sua história: o uso medicinal de cannabis como componente do cuidado com tiques, ansiedade e dificuldade de foco.

Seu relato merece atenção por dois motivos. O primeiro é humano: mostra um atleta que não cabe na narrativa simplista de que uma condição neurológica impede desempenho de elite. O segundo é editorial e científico: permite discutir o potencial dos canabinoides sem transformar uma experiência individual em promessa de tratamento.

Tourette não se resume aos tiques

A síndrome de Tourette é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por tiques motores e vocais. A intensidade pode oscilar ao longo do tempo e fatores como estresse, ansiedade e contexto social podem influenciar a experiência de cada pessoa. Também podem coexistir condições como transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Tomás contou que recebeu o diagnóstico aos quatro anos. Segundo os relatos publicados pelo Cannabis & Saúde e pelo Smoke Buddies, ele começou a investigar a cannabis ainda adolescente e, com acompanhamento, passou a usar formulações com canabinoides. Em sua percepção, a combinação de THC e CBD ajudou a reduzir os tiques e a ansiedade e favoreceu o foco. Essa é a experiência narrada pelo atleta — relevante, mas não equivalente a uma conclusão clínica aplicável a todas as pessoas com Tourette.

O que os estudos conseguem afirmar

A pesquisa clínica sobre cannabis e Tourette avançou, mas ainda reúne amostras pequenas, formulações diferentes e resultados que não são uniformes. Em um ensaio multicêntrico com 97 adultos, o nabiximols — extrato padronizado com THC e CBD — não demonstrou superioridade estatística no desfecho primário. Os pesquisadores observaram, porém, tendências de melhora em desfechos secundários e sinais de possível benefício em alguns subgrupos.

Outro ensaio cruzado, com 12 adultos e nove participantes que completaram o protocolo, comparou produtos vaporizados com THC, THC/CBD, CBD e placebo. Não houve diferença estatisticamente significativa no desfecho primário de avaliação dos tiques. Produtos com THC apresentaram sinais favoráveis em medidas secundárias, mas também mais eventos adversos, especialmente efeitos cognitivos e psicomotores.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 encontrou melhora em algumas escalas após o uso de medicamentos à base de cannabis. A interpretação exige cautela: combinar estudos pequenos e heterogêneos pode sugerir um sinal clínico, mas não resolve dúvidas sobre quem pode se beneficiar, qual formulação utilizar, em que dose e com quais riscos. Um estudo piloto com adolescentes também concluiu que pesquisas maiores são necessárias antes de avaliar eficácia.

O quadro mais honesto, portanto, é este: existe um sinal de potencial terapêutico, sobretudo em formulações que contêm THC, mas a evidência ainda não autoriza generalizações nem uso sem avaliação especializada. A decisão clínica precisa considerar idade, sintomas predominantes, outras medicações, saúde mental, risco de efeitos adversos e objetivos da pessoa.

Quando o cuidado encontra o antidoping

Para atletas sujeitos ao Código Mundial Antidoping, o desafio ganha uma camada adicional. O CBD não aparece como substância proibida, mas todos os outros canabinoides permanecem proibidos em competição. Isso inclui o THC, justamente o componente associado a parte dos sinais terapêuticos observados nos estudos sobre Tourette. Produtos de CBD também podem conter traços de outros canabinoides por contaminação ou rotulagem imprecisa.

Tomás relatou que precisava interromper o THC antes das competições. Na experiência dele, a mudança aumentava ansiedade e tiques em um período no qual buscava máxima estabilidade. O caso expõe um conflito real: a regra esportiva não é uma orientação de tratamento, e uma necessidade médica não desaparece quando começa a janela de competição.

A Autorização de Uso Terapêutico existe para situações em que um atleta precisa de uma substância ou método proibido por razões médicas, mas não deve ser tratada como aprovação automática. O processo depende de critérios, documentação e análise pela organização antidopagem competente. Alterar ou suspender uma medicação apenas para competir também não deve ser uma decisão solitária do atleta.

A lição que vai além da cannabis

Tomás não atribui sua conquista a uma substância milagrosa. Seu desempenho nasceu de treino, técnica, equipe, constância e da busca por uma forma de conviver melhor com uma condição crônica. A cannabis aparece em sua história como parte de um cuidado mais amplo — não como atalho esportivo.

Esse enquadramento importa. Dar visibilidade a um campeão com Tourette pode ajudar jovens atletas a reconhecer que diagnóstico não define limite nem identidade. Ao mesmo tempo, respeitar a ciência significa dizer que relatos pessoais inspiram perguntas, mas ensaios maiores ainda precisam respondê-las.

Se você convive com Tourette e quer entender se canabinoides fazem sentido no seu caso, procure um médico qualificado. Se compete, envolva também a equipe responsável pelo antidoping antes de iniciar, trocar ou interromper qualquer produto. Informação responsável protege tanto a saúde quanto a carreira esportiva.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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