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Carboidratos, saliva e cannabis: o que o atleta precisa saber sobre saúde bucal

Estudo da professora Alethéia Pablos amplia o olhar sobre bruxismo, boca seca e envelhecimento bucal precoce — riscos que também atravessam a rotina esportiva.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

03 de ago. de 2026

Atleta de endurance com água, gel de carboidrato e folhas de cannabis em cenário ao ar livre

Quem treina por muitas horas aprende cedo a abastecer o corpo. Géis, gomas, bebidas esportivas e outros carboidratos de rápida absorção podem ser importantes para sustentar o desempenho e evitar a queda de energia. Mas existe uma parte desse processo que quase nunca entra na conversa: o que acontece na boca quando essas exposições se repetem ao longo do treino?

A questão ganha uma nova perspectiva no artigo “Além da cavidade bucal: como o sistema endocanabinoide modula os eixos neuropsicoimunológicos da síndrome do envelhecimento precoce bucal”, publicado em 2026 no Journal of Clinical Dentistry and Research. O trabalho é assinado pela professora Alethéia Buosi Pablos e por Guilherme Arthur Martins.

Alethéia Pablos, pesquisadora em neurobiologia e metabolismo energético e uma das referências brasileiras na aproximação entre Endocanabinologia e Odontologia, propõe olhar a saúde bucal para além dos dentes. Em vez de tratar desgaste, dor, boca seca ou bruxismo como problemas isolados, o artigo os conecta a sono, ansiedade, inflamação, sistema nervoso autônomo, medicamentos e hábitos contemporâneos. Entre os grupos de atenção aparecem também os atletas.

O carboidrato é combustível — o problema pode estar na frequência

A primeira distinção é essencial: esta não é uma defesa de reduzir o combustível necessário ao exercício. Estratégias de carboidrato são individualizadas de acordo com modalidade, duração, intensidade e objetivo. O risco bucal não depende apenas da quantidade total ingerida, mas também da frequência, da acidez do produto, do tempo de contato com os dentes e das condições da saliva.

Quando açúcares fermentáveis chegam repetidamente à boca, bactérias do biofilme produzem ácidos. Se essas quedas de pH se repetem muitas vezes e a saliva não consegue neutralizá-las adequadamente, aumenta a pressão sobre o esmalte e o risco de cárie. Já a erosão dental é um processo diferente: nela, ácidos presentes em bebidas ou alimentos podem desgastar diretamente a superfície dos dentes, mesmo sem a participação bacteriana.

Um estudo experimental com corredores treinados mostrou que a ingestão de suplemento de carboidrato ao redor de um treino de endurance reduziu temporariamente o pH salivar. Outro experimento, realizado em bicicleta ergométrica, encontrou redução do pH e da capacidade de tamponamento da saliva em condições que incluíam bebida esportiva. São estudos pequenos e não provam que todo gel ou isotônico causará doença, mas ajudam a explicar por que o padrão repetitivo de exposição merece atenção.

A literatura mais recente pede equilíbrio. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou prevalência elevada de erosão nos grupos estudados, mas concluiu que ainda não há evidência suficiente para atribuir o problema apenas às bebidas esportivas. Na prática, o risco é multifatorial: dieta, hidratação, higiene, composição do produto, saúde prévia e características do treino interagem.

Durante o exercício, a saliva muda

A saliva lubrifica, participa da limpeza da boca, ajuda a neutralizar ácidos e fornece minerais importantes para a proteção do esmalte. Exercício intenso, respiração bucal, calor, desidratação e ativação do sistema nervoso simpático podem alterar essa proteção.

No artigo de Pablos e Martins, o exercício intenso aparece associado à sensação de boca seca e à saliva mais espessa. Estudos experimentais também observaram aumento da viscosidade salivar logo após o exercício. É nesse ambiente — menor conforto bucal, exposições frequentes a carboidratos e possível acidez — que o cuidado do atleta precisa ser pensado.

Isso não significa trocar uma estratégia nutricional comprovada por medo de cárie. Significa aproximar nutricionista esportivo e cirurgião-dentista para que o abastecimento continue funcionando sem ignorar a saúde bucal. A estratégia deve preservar o desempenho e, ao mesmo tempo, reduzir exposições desnecessárias fora das janelas em que o carboidrato realmente é útil.

Bruxismo, sono e estresse também entram na equação

O artigo da professora Alethéia amplia ainda mais o quadro ao discutir a Síndrome do Envelhecimento Precoce Bucal, ou SEPB. Trata-se de um construto clínico emergente usado pelos autores para reunir alterações degenerativas desproporcionais à idade cronológica, relacionadas a fatores como bruxismo, distúrbios do sono, ansiedade, xerostomia, hábitos alimentares, inflamação e sobrecarga mecânica.

Para atletas, há uma conexão plausível. Apertar a mandíbula durante esforços intensos, conviver com sono insuficiente, estresse competitivo ou respiração bucal pode aumentar a carga sobre dentes, músculos mastigatórios e articulação temporomandibular. Se esse cenário ocorre junto de menor proteção salivar e exposição ácida frequente, diferentes fatores podem se somar.

Os autores defendem, por isso, uma abordagem multiprofissional. O dentista trata estruturas bucais, mas a origem do problema pode envolver sono, saúde mental, comportamento, nutrição, medicamentos e outras condições sistêmicas.

Onde entra o sistema endocanabinoide?

O sistema endocanabinoide participa da regulação de processos como estresse, sono, dor, inflamação, atividade muscular e salivação. O artigo de Pablos e Martins discute como receptores e mediadores desse sistema podem conectar mecanismos centrais — como ansiedade, sono fragmentado e bruxismo — a manifestações periféricas na boca.

Esse é um campo promissor, mas a palavra “cannabis” exige precisão. Sistema endocanabinoide não é sinônimo de consumir cannabis, e os efeitos variam conforme molécula, dose, formulação, via de administração e perfil clínico.

Um ensaio clínico randomizado com 60 pessoas publicado em 2024 encontrou redução de dor, tensão muscular e atividade de bruxismo do sono com formulações intraorais de CBD durante 30 dias. É um resultado interessante, mas pequeno, de curta duração e voltado a uma população específica. Ele não autoriza generalizar o CBD como solução para qualquer atleta que aperta os dentes — nem substitui diagnóstico e acompanhamento profissional.

A direção oposta também precisa aparecer. A ativação de receptores CB1 pode diminuir a secreção salivar, e o uso frequente de cannabis, sobretudo fumada, tem sido associado a boca seca e alterações na saúde bucal. Fumaça e combustão não são terapêuticas e acrescentam riscos próprios. Portanto, falar em potencial da modulação do sistema endocanabinoide não significa afirmar que toda forma de cannabis protege a boca.

O que o atleta pode levar dessa conversa

O primeiro passo é não esperar a dor aparecer. Sensibilidade, sensação persistente de boca seca, sangramento gengival, desgaste visível, fraturas, dor na mandíbula e acordar com musculatura facial cansada são sinais que merecem avaliação odontológica.

Também vale levar ao dentista um retrato real da rotina: duração dos treinos, frequência de géis e bebidas, uso de medicações, qualidade do sono, episódios de refluxo, respiração bucal e eventual tratamento com cannabis medicinal. O contexto permite uma prevenção mais individualizada, sem comprometer a nutrição esportiva.

Medidas de higiene com flúor, acompanhamento periódico e enxágue com água após exposições ácidas ou açucaradas podem fazer parte da conversa profissional. A orientação, porém, deve considerar cada modalidade e cada pessoa. Escovar os dentes imediatamente após uma exposição muito ácida, por exemplo, pode não ser a melhor escolha; o cirurgião-dentista pode orientar o momento e a técnica adequados.

Uma nova fronteira entre Odontologia e esporte

Ao colocar saliva, bruxismo, sono, inflamação, alimentação e sistema endocanabinoide na mesma discussão, o trabalho da professora Alethéia Pablos ajuda a abrir uma fronteira pouco explorada na saúde do atleta.

A mensagem central não é abandonar o carboidrato nem transformar a cannabis em protagonista. É reconhecer que desempenho e saúde bucal não vivem em compartimentos separados. O combustível necessário para treinar, o modo como o corpo responde ao estresse e a proteção oferecida pela saliva fazem parte do mesmo organismo.

Para quem pratica endurance, esportes de alta intensidade ou mantém uma rotina de treinos exigente, incluir a boca no plano de saúde pode ser tão estratégico quanto cuidar do sono, da hidratação e da recuperação.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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