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Ciência4 min de leitura

CBD broad spectrum e antidoping: o risco que pode aumentar após o exercício

Estudo encontrou CBG e CBDV na urina após dez semanas de uso de um produto broad spectrum — e as concentrações aumentaram depois de 90 minutos de exercício moderado.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

12 de ago. de 2026

Ciclista após treino ao lado de material de coleta para exame antidoping em ambiente de laboratório

Um produto de CBD pode não conter THC detectável e, ainda assim, representar risco antidoping. Esse é o alerta central de um estudo publicado na revista Medicine & Science in Sports & Exercise, que acompanhou o uso diário de um suplemento de CBD broad spectrum por dez semanas.

O ponto mais importante para o atleta é simples: a Agência Mundial Antidoping, a WADA, permite somente o canabidiol, o CBD. Outros canabinoides naturais ou sintéticos continuam proibidos em competição. Isso inclui compostos que podem aparecer em produtos broad spectrum, mesmo quando o rótulo destaca a ausência de THC.

O que os pesquisadores testaram

O estudo incluiu 36 adultos saudáveis. Trinta e um receberam diariamente 150 miligramas de um produto de CBD broad spectrum, que continha traços de cannabigerol, o CBG. Cinco receberam placebo visualmente idêntico.

Depois de dez semanas, os participantes realizaram 90 minutos de exercício moderado em jejum, a 55% do VO2 de pico. Os pesquisadores coletaram sangue e urina antes do início da suplementação e imediatamente antes e depois do exercício.

Nenhum canabinoide ou metabólito havia sido detectado no início do estudo. Após as dez semanas, a análise encontrou CBG em 42% das amostras de urina coletadas antes do exercício e CBDV, a cannabidivarina, em 68%.

Depois do exercício, esses percentuais subiram: CBG foi detectado em 74% das amostras e CBDV em 84%. As concentrações urinárias de CBD, de alguns de seus metabólitos, de CBG e de CBDV também aumentaram entre a coleta pré e pós-exercício.

O THC e seus metabólitos não foram detectados em nenhum momento. Portanto, o achado não foi causado por THC escondido: o risco veio de outros canabinoides presentes ou associados ao produto broad spectrum.

Por que o exercício pode mudar a amostra

O estudo mostrou uma associação temporal: depois de 90 minutos de exercício moderado, houve aumento das concentrações urinárias de diferentes canabinoides. O desenho não permite transformar esse resultado em uma regra universal nem prever o comportamento em cada atleta, modalidade, intensidade ou produto.

Ainda assim, o resultado é relevante porque uma coleta antidoping acontece justamente em contexto esportivo. Um produto que parece apresentar baixo risco em repouso pode produzir uma amostra diferente após o esforço. Não existe uma tabela segura de dose, número de dias ou intensidade de exercício capaz de garantir eliminação completa.

Broad spectrum não significa apenas CBD

Em geral, o termo broad spectrum descreve extratos que preservam mais de um composto da planta, mas buscam retirar o THC. Isso é diferente do CBD isolado, formado apenas pelo canabidiol purificado, e do full spectrum, que pode manter THC dentro dos limites regulatórios aplicáveis ao produto.

Essas classificações comerciais, entretanto, não são uma certificação antidoping. Um produto anunciado como "sem THC" pode conter CBG, CBDV, CBN, CBC ou outros canabinoides. Para a WADA, a exceção é o CBD; os demais canabinoides permanecem proibidos em competição.

A USADA, agência antidoping dos Estados Unidos, também alerta que atletas devem presumir que óleos e extratos de CBD podem ser misturas. Certificação de terceira parte pode reduzir o risco de contaminação ou erro de rótulo, mas não o elimina.

Detectável não é sinônimo automático de resultado positivo

O estudo analisou se canabinoides proibidos podiam ser detectados com métodos laboratoriais. Ele não simulou todo o processo de um laboratório credenciado pela WADA e não concluiu que cada detecção se transformaria necessariamente em uma violação de regra antidoping.

Essa distinção é importante para não alarmar. Ao mesmo tempo, como CBG e CBDV são proibidos em competição e não têm o mesmo limiar de reporte do THC, a presença deles cria um risco real que não deve ser ignorado por atletas submetidos a testes.

O que o atleta precisa fazer

A conclusão prática não é abandonar tratamento por conta própria. É integrar o risco antidoping à decisão clínica e esportiva.

Antes de usar qualquer produto, o atleta deve conversar com o médico prescritor, informar que está sujeito a controle antidoping e verificar as regras da modalidade e da organização responsável pela competição. Também deve avaliar composição, laudo do lote, rastreabilidade e eventual certificação independente.

Mesmo assim, nenhum rótulo ou certificado oferece garantia absoluta. A responsabilidade objetiva continua valendo: em regra, o atleta responde pelo que aparece em sua amostra.

Para quem compete, "CBD permitido" não significa "qualquer produto de CBD é seguro". E "sem THC" não significa "sem outros canabinoides proibidos". Essa é a mudança de percepção que o novo estudo coloca no centro da conversa.

Limites do estudo

A amostra foi pequena e desequilibrada entre o grupo CBD e o placebo. Os participantes eram adultos saudáveis, não necessariamente atletas de elite. Foi testado um produto específico, em uma dose específica, durante dez semanas e com uma sessão padronizada de exercício moderado.

Os resultados não devem ser usados para prever o risco de outra formulação, outra dose ou outro período de uso. Também não demonstram benefício clínico ou esportivo do CBD.

Fontes

- Gillham SH et al. Daily Use of a Broad-Spectrum Cannabidiol Supplement Produces Detectable Concentrations of Cannabinoids in Urine Prohibited by the World Anti-Doping Agency: An Effect Amplified by Exercise. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2026. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40920736/
- World Anti-Doping Agency. 2026 Prohibited List. https://www.wada-ama.org/en/resources/world-anti-doping-program/prohibited-list
- USADA. Athletes: 6 Things to Know About Cannabidiol. https://www.usada.org/spirit-of-sport/six-things-know-about-cannabidiol/

Conteúdo educativo. Não altere tratamento, produto ou dose sem orientação de profissional habilitado e sem considerar as regras antidoping aplicáveis à sua modalidade.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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