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Cannabis, cirurgia e anestesia: por que esconder o uso aumenta o risco

Produto, via, frequência e momento do último uso podem mudar o planejamento anestésico. A decisão sobre manter ou interromper cabe à equipe assistente.

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 23 de ago. de 2026

Atualizado em 23/08/2026

Atleta mostra frasco sem marca durante conversa pré-operatória com anestesiologista

Uma cirurgia por lesão, hérnia ou outro problema pode interromper o calendário de qualquer atleta. Para quem usa cannabis medicinal, existe uma informação que não deve ficar fora da avaliação pré-operatória: qual produto é usado, por qual via, com que frequência e quando ocorreu o último uso.

Contar isso ao cirurgião e ao anestesiologista não é uma confissão nem um convite a julgamento. É informação clínica. Cannabis e canabinoides podem interferir na avaliação de consciência, no sistema cardiovascular, nas vias aéreas, na quantidade de anestésico necessária, no controle da dor e no planejamento da recuperação.

A equipe precisa saber antes do dia da cirurgia

A diretriz de consenso da American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine recomenda rastrear todos os pacientes quanto ao uso de cannabis antes de procedimentos. A conversa deve incluir tipo do produto, canabinoides presentes, via de uso, quantidade, frequência e momento do último consumo.

A American Society of Anesthesiologists também orienta informar o consultório do cirurgião com antecedência, especialmente quando o uso é regular. Esperar o paciente já estar na sala de preparo reduz o tempo disponível para avaliar riscos e ajustar o plano.

Isso vale para produtos prescritos e não prescritos, com THC, CBD ou combinações. “Óleo de cannabis” não descreve sozinho a composição, e dizer apenas “uso medicinal” não responde às perguntas que a equipe precisa fazer. Levar a embalagem, o rótulo, a prescrição e uma lista dos demais medicamentos e suplementos pode tornar a conversa mais objetiva.

Por que a via de uso importa

Fumar cannabis expõe as vias aéreas a irritantes e pode estar associado a maior resistência das vias respiratórias. A diretriz da ASRA também aponta aumento de frequência cardíaca e pressão arterial nas primeiras horas após fumar, além de possível elevação do risco cardiovascular perioperatório nesse intervalo.

Óleos, cápsulas e produtos ingeridos não carregam o mesmo risco respiratório da fumaça, mas isso não os torna automaticamente irrelevantes para a anestesia. Para outras vias, a própria diretriz reconhece falta de dados suficientes para determinar um único intervalo seguro. É justamente por isso que produto, dose prescrita, frequência e último uso precisam ser avaliados individualmente.

Não existe um prazo universal para suspender

Recomendações públicas variam, e a evidência é limitada. A diretriz da ASRA afirma que não há dados suficientes para estabelecer uma duração única de interrupção para todas as vias e formulações. Também recomenda adiar cirurgia eletiva quando há alteração do estado mental ou incapacidade de decisão associada à intoxicação aguda.

Para quem usa cannabis medicinal, interromper sozinho também pode trazer consequências para a condição tratada. A orientação responsável não é fornecer um número de horas pela internet, mas avisar a equipe com antecedência e seguir a instrução específica do cirurgião, anestesiologista e profissional que acompanha o tratamento. Em cirurgia de urgência, o uso recente deve ser comunicado imediatamente, sem omissão.

CBD também entra na conversa

O fato de o CBD não produzir o mesmo tipo de intoxicação do THC não elimina sua relevância. A equipe precisa conhecer todos os medicamentos e produtos usados porque pode haver interações, efeitos sobre sedação e diferenças entre o que o rótulo declara e o conteúdo real do produto.

A matéria não propõe que CBD e THC tenham o mesmo perfil. Propõe algo mais simples: o anestesiologista não deve descobrir uma informação importante depois que o procedimento começou.

Dor e recuperação podem exigir outro planejamento

Estudos observacionais citados pelas sociedades médicas encontraram associações entre uso frequente de cannabis e diferenças no controle da dor ou na necessidade de medicamentos após a cirurgia. Isso não significa que todo paciente terá mais dor nem que a cannabis seja a causa isolada. Frequência, tolerância, condição clínica, cirurgia e outros medicamentos podem influenciar o resultado.

A equipe pode precisar planejar analgesia, náusea, sono, possíveis sintomas de abstinência e retorno gradual às atividades. Nenhuma dessas decisões deve ser substituída por um protocolo genérico de rede social.

Checklist para levar à avaliação pré-operatória

Organize o nome e a foto do produto, concentração indicada no rótulo, principais canabinoides declarados, via de uso, frequência, horário do último uso, motivo clínico acompanhado, prescrição e lista completa de medicamentos, suplementos, álcool e outras substâncias. Informe também se fuma ou vaporiza e se percebe tosse, falta de ar, palpitações, tontura ou sonolência.

Esse checklist não autoriza manter nem suspender o produto. Ele ajuda a equipe habilitada a tomar a decisão com mais informação.

Fernando Paternostro não é médico nem prescritor. É atleta de endurance, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis. Seu papel é ampliar o acesso à informação responsável e conectar pacientes a profissionais habilitados, sem substituir avaliação clínica.

Fontes

ASRA Pain Medicine. Consensus guidelines on the management of the perioperative patient on cannabis and cannabinoids. Publicado em 2023. https://rapm.bmj.com/content/48/3/97

American Society of Anesthesiologists. Cannabis and Surgery. Revisado em 8 de agosto de 2023. https://madeforthismoment.asahq.org/preparing-for-surgery/risks/cannabis-surgery-made-moment/

American College of Surgeons. Marijuana and Surgery. https://www.facs.org/for-patients/preparing-for-surgery/marijuana-and-surgery/

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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