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Cannabis medicinal e insônia: estudo acompanha pacientes por 18 meses

Série de casos britânica encontrou melhora autorrelatada de sono, ansiedade e qualidade de vida, mas o efeito perdeu força ao longo do acompanhamento.

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 14 de set. de 2026

Atualizado em 14/09/2026

Atleta dorme em quarto ao amanhecer, com tênis de corrida ao lado da cama

Um acompanhamento de 124 pacientes com insônia encontrou melhora autorrelatada na qualidade do sono, na ansiedade e em dimensões da qualidade de vida após a prescrição de produtos medicinais à base de cannabis. Os resultados permaneceram estatisticamente melhores que a linha de base em avaliações realizadas até 18 meses — o período mais longo já analisado por um estudo desse tipo para insônia.

O trabalho foi publicado em 27 de agosto de 2025 na PLOS Mental Health, e não em 2026. Trata-se de uma série de casos do UK Medical Cannabis Registry, registro ligado a uma clínica privada britânica. Portanto, o estudo mostra uma associação promissora em condições reais de cuidado, mas não prova que a cannabis tenha causado as mudanças observadas.

O que foi acompanhado

Os participantes eram adultos com diagnóstico de insônia primária que não haviam melhorado após pelo menos dois medicamentos licenciados. Todos foram avaliados por médico e equipe multidisciplinar antes de receber produtos à base de cannabis dentro das regras britânicas.

Os pesquisadores compararam medidas preenchidas pelos próprios pacientes antes do tratamento e após 1, 3, 6, 12 e 18 meses. Os principais instrumentos avaliaram qualidade subjetiva do sono, sintomas de ansiedade e qualidade de vida relacionada à saúde.

A pontuação média de sono, em uma escala de zero a dez, passou de 2,66 no início para 5,67 no primeiro mês. Aos 18 meses, a média era 3,81: ainda melhor que a linha de base, porém abaixo do ganho observado no começo. Ansiedade e algumas dimensões de qualidade de vida seguiram padrão semelhante, com resultados melhores que os iniciais em todos os pontos avaliados.

A melhora não se manteve com a mesma intensidade

O dado de longo prazo é relevante, mas a interpretação exige precisão. Não é correto afirmar que a melhora não diminuiu com o tempo. O próprio artigo descreve redução progressiva da magnitude do benefício entre o primeiro e o 18º mês.

Os autores levantam hipóteses como efeito de expectativa e desenvolvimento de tolerância, especialmente porque as doses medianas de CBD e THC aumentaram durante o acompanhamento. Isso não permite concluir que houve tolerância em cada participante, mas mostra por que o estudo não deve ser apresentado como prova de efeito constante.

Também não houve comparação direta com outros medicamentos. Assim, o trabalho não sustenta a afirmação de que a cannabis se comporta de maneira diferente ou superior aos tratamentos convencionais para insônia.

O que os eventos adversos realmente mostram

Onze participantes — 8,87% da amostra — relataram eventos adversos. Ao todo, foram registrados 112 eventos, porque uma mesma pessoa podia relatar mais de um. Os mais frequentes foram fadiga, insônia e boca seca.

Os eventos não foram todos leves: o artigo contabilizou registros leves, moderados e severos. Nenhum, porém, foi classificado como incapacitante ou com risco de vida. Os próprios autores observam que a segurança do uso prolongado ainda não está bem estabelecida e precisa ser estudada em ensaios de maior qualidade.

Por que o desenho do estudo limita as conclusões

Não havia grupo placebo, randomização nem cegamento. Os desfechos foram autorrelatados, sem actigrafia ou polissonografia para medir objetivamente o sono. Além disso, 79% dos participantes já usavam ou haviam usado cannabis, e os dados vieram de pacientes de uma clínica privada, o que limita a generalização.

O manejo de dados ausentes também é relevante: a análise carregou para avaliações posteriores a última observação disponível ou, em determinadas situações, o valor inicial. Esse método evita perder participantes da análise, mas não substitui dados efetivamente coletados em cada visita.

A literatura controlada ainda é pequena e heterogênea. Uma revisão sistemática encontrou sinais possíveis de benefício, mas classificou os estudos disponíveis como insuficientes para orientar a prática com segurança. Um ensaio piloto com CBD isolado, por sua vez, encontrou resultados semelhantes ao placebo na maioria dos desfechos de sono. Formulação, proporção entre canabinoides, dose e perfil do paciente podem mudar substancialmente a resposta.

Um sinal promissor, não uma prescrição

O principal mérito do estudo é estender o acompanhamento de pacientes reais até 18 meses e mostrar que os resultados autorrelatados continuaram acima da linha de base. Ao mesmo tempo, a queda gradual da magnitude da melhora e o aumento das doses reforçam a necessidade de ensaios clínicos randomizados para avaliar eficácia, segurança e possível tolerância.

Cannabis medicinal não é uma solução automática para insônia. Dificuldade persistente para dormir pode ter causas clínicas, comportamentais, psiquiátricas ou relacionadas à carga de treino e a outros medicamentos. A decisão sobre qualquer tratamento deve ser individual, acompanhada por profissional habilitado e integrada às abordagens de primeira linha indicadas para cada caso.

Fontes

- [Estudo original na PLOS Mental Health](https://journals.plos.org/mentalhealth/article?id=10.1371/journal.pmen.0000390)
- [Revisão sistemática e metanálise sobre canabinoides e insônia](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33244728/)
- [Ensaio piloto randomizado com CBD para insônia moderada a grave](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38174873/)

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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