Atleta Cannabis
Ciência9 min de leitura

Cannabis e esporte entram no laboratório: o que o simpósio da UC San Diego revelou

Evento reuniu pesquisadores, atletas de elite, especialistas em antidoping e autoridades científicas — e homenageou o brasileiro José Alexandre Crippa

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 05 de out. de 2026

Atualizado em 05/10/2026

Atleta corre em esteira enquanto pesquisadores acompanham dados em laboratório de ciência do esporte

O uso de cannabis e canabinoides já faz parte da conversa no esporte. Atletas falam de dor, sono, ansiedade e recuperação; empresas vendem produtos com promessas de bem-estar; entidades esportivas revisam suas regras. Mas, quando a pergunta é desempenho, o que a ciência realmente consegue afirmar?

Foi para colocar essas experiências e hipóteses sob escrutínio científico que o Center for Medicinal Cannabis Research (CMCR), da Universidade da Califórnia em San Diego, realizou o 2026 CMCR Symposium: Cannabis & Sport nos dias 1º e 2 de outubro. O encontro virtual reuniu pesquisadores de diferentes países, atletas de elite, representantes do esporte universitário e especialistas ligados a órgãos federais dos Estados Unidos.

A programação percorreu quatro territórios que frequentemente se misturam no debate público: o sistema endocanabinoide ativado pelo próprio exercício; o consumo de cannabis por atletas; o uso de CBD e outros derivados; e as regras antidoping. Separá-los é fundamental. O fato de o corpo produzir endocanabinoides durante uma corrida, por exemplo, não significa que consumir cannabis reproduza os efeitos do exercício. Da mesma forma, um relato de melhora na recuperação não equivale a uma demonstração clínica de ganho de performance.

Um brasileiro entre os homenageados

Um dos momentos centrais do simpósio foi o reconhecimento ao psiquiatra José Alexandre S. Crippa, professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e codiretor do Brazilian Cannabinoid Research Center. Ele recebeu o 2026 CMCR Award for Advancing Cannabis and Cannabinoids as Therapeutics.

A palestra anunciada pelo CMCR percorreu a trajetória do canabidiol, de composto considerado inativo da Cannabis sativa a substância investigada em diferentes aplicações terapêuticas. Segundo a biografia divulgada pelo centro, Crippa pesquisa CBD há mais de duas décadas, com trabalhos em psiquiatria clínica, neuroimagem, ansiedade, psicose e outros transtornos neuropsiquiátricos.

A homenagem tem peso simbólico para o Brasil. Ela reconhece uma linha de pesquisa construída dentro de uma universidade pública brasileira e inserida na história internacional do canabidiol. Também mostra que o país não participa desse debate apenas como mercado consumidor: pesquisadores brasileiros ajudaram a construir parte da base científica que hoje orienta estudos e medicamentos à base de canabinoides.

Crippa dividiu o painel de homenageados com nomes como Geoffrey Guy, fundador da GW Pharmaceuticals; Donald Abrams, pesquisador clínico da Universidade da Califórnia em San Francisco; Marilyn Huestis, referência em toxicologia; Margaret Haney, diretora de laboratório de pesquisa em cannabis na Universidade Columbia; e Mahmoud ElSohly, responsável por décadas de pesquisa e produção de cannabis para estudos federais nos Estados Unidos.

Quando a experiência dos atletas encontra o laboratório

O simpósio não ficou restrito aos pesquisadores. Um dos destaques foi Ricky Williams, ex-running back da NFL, vencedor do Heisman Trophy e uma das figuras mais conhecidas da defesa da cannabis entre atletas profissionais.

Em uma edição especial do podcast High5 with Igor Grant, já disponibilizada pelo CMCR, Williams falou sobre cannabis, ansiedade social, lesões e recuperação ao longo da carreira. Ele descreveu a cannabis dentro de um conjunto mais amplo de práticas que incluía terapia, yoga, alongamento e meditação. Também recordou o peso psicológico de lesões para atletas cuja renda depende da capacidade física.

Seu depoimento ajuda a entender por que jogadores estiveram entre as vozes mais ativas na contestação de políticas punitivas. Mas continua sendo uma experiência individual. Ela pode orientar novas perguntas de pesquisa; não substitui ensaios controlados, avaliação médica ou análise de risco.

O painel de atletas anunciado pelo evento também reuniu a ex-jogadora de rugby Anna Symonds, o ex-jogador da NHL Riley Cote, o atleta olímpico de rugby Andrew Durutalo, a campeã de snowboard extremo Greta Gaines e Ross Rebagliati, campeão olímpico de snowboard em 1998. O encontro colocou modalidades, épocas e trajetórias diferentes diante da mesma questão: por que tantos atletas procuram cannabis mesmo quando as evidências ainda são incompletas?

Runner’s high: mais do que endorfinas

Para atletas de endurance, um dos blocos mais relevantes tratou do runner’s high — o estado de bem-estar, redução da ansiedade e, em alguns casos, euforia associado ao exercício prolongado. Durante décadas, o fenômeno foi popularmente atribuído às endorfinas. Estudos mais recentes, porém, colocaram os endocanabinoides no centro da investigação.

Michael Siebers, pesquisador da Universidade de Duisburg-Essen, apresentou o tema no simpósio. Em um estudo randomizado e controlado publicado em 2021, Siebers e colegas avaliaram 63 participantes após corrida ou caminhada. A corrida elevou a euforia, reduziu a ansiedade e aumentou as concentrações sanguíneas de anandamida e 2-AG, duas moléculas do sistema endocanabinoide.

Os pesquisadores também utilizaram naltrexona para bloquear receptores opioides. Mesmo com esse bloqueio, a euforia e a redução da ansiedade apareceram após a corrida. O resultado enfraquece a explicação de que o runner’s high dependa apenas dos opioides endógenos e torna os endocanabinoides candidatos importantes para explicar o fenômeno em seres humanos.

Ainda há perguntas abertas. A presença dessas moléculas no sangue não prova, sozinha, todo o caminho causal no cérebro. Intensidade, duração do exercício, treinamento, idade, sexo e diferenças individuais podem modificar a resposta. E nada disso permite equiparar o runner’s high ao efeito provocado pelo consumo de THC. O exercício mobiliza um sistema fisiológico complexo; usar uma substância externa é outra intervenção, com farmacologia e riscos próprios.

CBD melhora corrida, prazer ou recuperação?

A programação clínica incluiu uma apresentação de Danielle McCartney, pesquisadora da Universidade de Sydney, sobre CBD e exercício de endurance. Os estudos conduzidos por seu grupo ajudam a colocar limites em alegações comerciais comuns.

Em um ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e cruzado, 51 participantes recreativamente ativos receberam 150 miligramas de CBD ou placebo antes de uma corrida de dez quilômetros. O CBD não melhorou o prazer durante o exercício, a motivação, a autoeficácia, a percepção de esforço ou o tempo de corrida. Também não reduziu a dor provocada pelo esforço.

Em outro ensaio da equipe, 25 corredores treinados receberam placebo, 50 ou 300 miligramas de CBD antes de sessões em esteira. As doses não alteraram de forma relevante prazer, esforço percebido, dor, humor ou ansiedade durante o protocolo.

O conjunto não demonstra que o CBD seja inútil em qualquer contexto. Mostra algo mais específico: até agora, ensaios pequenos e controlados não sustentam a ideia de que uma dose aguda melhore de maneira consistente a experiência ou o desempenho no endurance. Também não é possível extrapolar esses resultados para todas as formulações, doses, perfis de atleta ou usos clínicos.

A literatura sobre recuperação exige cautela semelhante. Um estudo cruzado com 24 atletas universitárias bem treinadas não encontrou redução de inflamação, fadiga ou perda de performance após exercício excêntrico intenso com suplementação de CBD. São amostras modestas, mas apontam uma diferença importante entre plausibilidade biológica, testemunho pessoal e benefício esportivo comprovado.

Cannabis, coração e exercício aeróbico

Outro bloco do evento abordou respostas cardiorrespiratórias ao exercício, com Christian Cheung, fisiologista e cientista da WHOOP. Esse tema é particularmente sensível porque produtos ricos em THC podem alterar frequência cardíaca, percepção, coordenação e tomada de decisão.

“Cannabis” não é uma intervenção única. Flor, óleo, comestível, vaporizado, CBD isolado, THC e combinações de canabinoides produzem exposições diferentes. Dose, via de administração, momento do uso, tolerância e composição do produto mudam os efeitos. Uma matéria responsável não pode transferir o resultado de um produto padronizado em laboratório para qualquer item disponível no mercado.

Para quem treina ou compete, segurança deve vir antes da promessa de recuperação. Sintomas cardiovasculares, interação com medicamentos, prejuízo de coordenação e alteração da percepção podem ter consequências maiores durante ciclismo, natação em águas abertas, esportes de contato ou treinos em ambientes de risco.

NCAA e WADA seguem lógicas diferentes

O simpósio também aproximou ciência e regulação. Patrick Neary apresentou um panorama do uso de cannabis entre atletas; Thomas Hudzik tratou da relação com o Código Mundial Antidoping; e representantes da NCAA discutiram dados do Student-Athlete Health and Wellness Study.

A NCAA retirou os canabinoides de sua classe de substâncias proibidas para campeonatos, adotando uma abordagem de redução de danos. A organização afirmou que seu programa nacional deveria se concentrar em substâncias que oferecem vantagem competitiva, mantendo educação e apoio em saúde no âmbito das instituições. A mudança não significa que a NCAA recomende cannabis ou considere todo uso seguro.

No sistema da Agência Mundial Antidoping, a situação é diferente. O CBD puro é exceção, mas outros canabinoides permanecem sujeitos às regras antidoping em competição. Além disso, produtos vendidos como CBD podem conter THC ou outros compostos não declarados. Para o atleta, confiar apenas no rótulo pode não ser suficiente.

As regras também mudam com o tempo e variam entre entidades. Antes de usar qualquer produto, o atleta sujeito a controle precisa consultar a lista vigente, sua organização antidoping e profissionais qualificados. O fato de uma substância ser legal ou prescrita não produz automaticamente autorização esportiva.

Pôsteres revelam uma agenda muito mais ampla

A sessão de pôsteres mostrou que a interseção entre cannabis e esporte vai além de performance. Entre os trabalhos anunciados estavam um estudo sobre CBD, ansiedade e qualidade do sono em jogadores universitários de futebol americano; uma análise da frequência de uso de cannabis e da atividade física medida por Fitbit; alterações cardíacas após cannabis e a decisão de dirigir; e um estudo piloto de CBD e CBG para recuperação.

Outros pôsteres abordaram glicose, exposição pré-natal ao CBD, possível efeito poupador de opioides, barreira hematoencefálica, demência, envelhecimento e saúde mental. Trabalhos apresentados em pôster costumam ser preliminares. Sem conhecer desenho, tamanho da amostra, análise e revisão por pares, seus títulos não devem ser convertidos em recomendações ou promessas clínicas.

O que o simpósio deixa para atletas e profissionais

O encontro da UC San Diego não ofereceu uma resposta simples — e esse talvez seja seu principal mérito. Cannabis não pode ser tratada apenas como vilã, solução universal ou atalho de performance. O campo reúne experiências reais de atletas, hipóteses fisiológicas plausíveis, mudanças culturais e regulatórias, mas ainda possui estudos pequenos, produtos pouco comparáveis e lacunas relevantes de segurança e eficácia.

Até o momento, a evidência não permite afirmar que cannabis ou CBD melhorem o desempenho esportivo. Há resultados que justificam continuar estudando dor, sono, ansiedade, recuperação, motivação e o próprio sistema endocanabinoide. Esse interesse científico, porém, deve caminhar junto com controle de qualidade, avaliação individual, cuidado médico e atenção às regras esportivas.

Para o Brasil, o prêmio concedido a José Alexandre Crippa acrescenta uma camada especial: enquanto o mundo tenta transformar relatos e expectativas em perguntas testáveis, a ciência brasileira ocupa um lugar importante nessa construção. O avanço não está em trocar proibição por promessa. Está em produzir evidência melhor — e comunicar com honestidade aquilo que ela prova, aquilo que apenas sugere e aquilo que ainda não sabemos.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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