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Dor & Lesões3 min de leitura

Estudo brasileiro aponta benefícios de extratos de cannabis para dor crônica em mulheres

Pesquisa com 29 pacientes encontrou melhora percebida na dor, no sono e na qualidade de vida, mas o desenho retrospectivo exige cautela na interpretação

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

29 de jul. de 2026

Mulher adulta se alonga em casa, com folhas de cannabis e frasco âmbar desfocados ao fundo

Dor persistente raramente afeta apenas uma parte do corpo. Ela pode limitar movimento, sono, trabalho, relações e saúde emocional. Um estudo brasileiro publicado na Frontiers in Pharmacology analisou justamente esse quadro ampliado em 29 mulheres com diferentes síndromes de dor crônica tratadas com extratos de cannabis de espectro completo.

Os resultados relatados pelas participantes foram positivos: todas perceberam algum alívio da dor, e a maioria também descreveu melhora em aspectos como sono, fadiga, mobilidade, ansiedade, irritabilidade, humor, capacidade profissional e qualidade de vida. O achado reforça uma ideia importante para quem convive com dor crônica: o objetivo do cuidado não é apenas baixar uma escala de dor, mas recuperar função e participação na vida.

Como o estudo foi realizado

A pesquisa foi retrospectiva, aberta e baseada na prática clínica real. As 29 participantes tinham diagnósticos variados, incluindo fibromialgia, dor lombar, dor neuropática, enxaqueca e condições musculoesqueléticas. Elas receberam extratos produzidos por duas associações brasileiras de pacientes, com formulações predominantes em CBD, em THC ou combinações dos dois canabinoides.

Não houve uma dose única. O tratamento começou com quantidades baixas e foi ajustado gradualmente, conforme a resposta e a tolerabilidade de cada paciente, em decisão clínica individualizada. Os próprios pesquisadores não encontraram uma relação geral consistente entre dose, proporção de canabinoides e resultado. Isso impede transformar o estudo em uma receita padronizada e reforça que produtos e doses não são intercambiáveis.

O que as participantes perceberam

Além do alívio da dor, os relatos incluíram ganhos funcionais e psicossociais. A maioria informou melhora do sono, da fadiga, das habilidades motoras e cognitivas, do humor e da ansiedade. Também foram descritos impactos positivos na rotina profissional, nas relações familiares e na autonomia para tarefas cotidianas.

Muitas participantes reduziram ou interromperam outros medicamentos para dor e transtornos do humor durante o período observado. Esse dado não significa que remédios devam ser suspensos por conta própria: mudanças desse tipo precisam ser feitas pelo profissional responsável, considerando interações, riscos e o histórico de cada pessoa. Ao final da pesquisa, as pacientes ainda utilizavam algum tipo de tratamento farmacológico, convencional, canabinoide ou combinado.

Efeitos adversos também foram registrados

Os efeitos adversos relatados foram classificados como leves a moderados, e nenhuma participante interrompeu o extrato por esse motivo. Boca seca, tontura ao se levantar, insônia, sonolência, ansiedade, náusea e dor de cabeça apareceram entre as ocorrências mais frequentes. Sete mulheres não relataram efeitos adversos.

A ausência de eventos graves nessa amostra não torna o uso isento de risco. A composição do extrato, a presença de THC, outros medicamentos, condições clínicas e diferenças individuais podem mudar tanto os benefícios quanto a tolerabilidade.

Por que os resultados exigem cautela

Este não foi um ensaio clínico randomizado, não houve grupo placebo e a amostra foi pequena. As informações vieram principalmente de um questionário retrospectivo de percepção das pacientes, o que abre espaço para viés de memória e seleção — inclusive porque pessoas com bons resultados podem ter maior disposição para responder. Também havia diferentes diagnósticos, formulações e esquemas de dose.

Essas limitações não anulam os relatos, mas impedem afirmar que os extratos causaram todos os benefícios observados ou que o mesmo resultado ocorrerá com outras mulheres. O estudo produz evidência de vida real e ajuda a formular perguntas para pesquisas controladas maiores.

O que essa pesquisa acrescenta

O trabalho chama atenção para diferenças relacionadas ao sexo na experiência da dor e na resposta farmacológica, uma área ainda sub-representada na pesquisa clínica. Também documenta a atuação de associações brasileiras no acesso a extratos de composição controlada e mostra por que o acompanhamento precisa considerar dor, função, sono, saúde emocional e vida social em conjunto.

A mensagem mais responsável não é que existe uma solução universal. É que extratos de cannabis podem ser uma opção a ser avaliada dentro de um plano individualizado, com produto conhecido, acompanhamento profissional, monitoramento de efeitos adversos e metas concretas de qualidade de vida.

Em resumo

Os dados são promissores para mulheres com síndromes de dor crônica, especialmente pelo alcance dos benefícios percebidos para além da dor. Ainda assim, são resultados exploratórios de uma pequena amostra e não substituem ensaios clínicos controlados nem orientação profissional.

Estudo original: https://doi.org/10.3389/fphar.2025.1538518

Divulgação científica da UnB: https://www.unbciencia.unb.br/biologicas/104-ciencias-biologicas/771-pesquisa-reune-evidencias-do-potencial-da-cannabis-para-tratar-dor-cronica-em-mulheres

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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