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Cannabis medicinal e insônia: estudo acompanha 124 pacientes por até 18 meses

Análise do registro britânico encontrou melhora autorrelatada no sono, ansiedade e qualidade de vida, mas o desenho observacional não permite afirmar que o tratamento causou os resultados.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

27 de jul. de 2026

Mulher acordada no quarto observa a luz do amanhecer após uma noite de insônia

Uma análise publicada na PLOS Mental Health acompanhou 124 pessoas com insônia primária tratadas com produtos medicinais à base de cannabis no Reino Unido. Os participantes relataram melhora na qualidade do sono desde o primeiro mês, com diferenças ainda observadas aos 18 meses. O resultado chama atenção, mas precisa ser interpretado corretamente: o estudo não teve placebo, não randomizou pacientes e não prova que a cannabis causou a melhora.

Os dados vieram do UK Medical Cannabis Registry, um registro mantido por uma clínica privada. Para entrar na análise, os pacientes precisavam ter diagnóstico de insônia primária e prescrição legal de produtos medicinais à base de cannabis. No sistema britânico descrito pelos autores, a prescrição ocorria depois de falha de pelo menos dois medicamentos licenciados e avaliação por especialista e equipe multidisciplinar.

O que os pesquisadores mediram

O principal indicador foi uma escala de qualidade do sono preenchida pelos próprios pacientes, de zero a dez. A média partiu de 2,66 antes do tratamento e chegou a 5,67 no primeiro mês. Depois, ficou em 5,41 aos três meses, 4,80 aos seis, 4,24 aos 12 e 3,81 aos 18 meses. Todas essas médias permaneceram estatisticamente diferentes da linha de base.

Também foram avaliados sintomas de ansiedade e aspectos da qualidade de vida. Os escores de ansiedade melhoraram nos diferentes momentos de acompanhamento. Houve mudanças favoráveis em atividades habituais, dor e desconforto, ansiedade e depressão e no índice geral de qualidade de vida.

Isso significa que os participantes se percebiam dormindo e vivendo melhor enquanto estavam em tratamento. Não significa que todos responderam, nem que a melhora foi constante. A redução gradual do ganho médio depois do primeiro mês também merece atenção e pode refletir tolerância, mudanças de dose, evolução da doença, perdas de acompanhamento ou outros fatores.

Não era um estudo apenas com CBD

Um ponto que se perde facilmente nas manchetes é a composição dos tratamentos. Os participantes receberam diferentes produtos, doses e vias de administração. A mediana diária de CBD começou em 1 mg e chegou a 10 mg em vários seguimentos. Já a mediana de THC foi de 20 mg no início e alcançou 120 mg aos 18 meses. A flor seca foi o regime mais frequente.

Portanto, não é correto resumir o trabalho como prova de que “CBD cura insônia”. A pesquisa avaliou produtos medicinais variados, muitos com THC, em pacientes atendidos em condições reais. O resultado não identifica a melhor formulação, proporção de canabinoides ou dose.

E os eventos adversos?

Onze participantes, equivalentes a 8,87% da amostra, relataram ao todo 112 eventos adversos. Nenhum foi classificado como incapacitante ou com risco de vida. A concentração de muitos eventos em poucas pessoas mostra por que apenas contar o número de pacientes afetados pode esconder a carga vivida por quem apresentou sintomas repetidos.

A ausência de eventos graves nesta amostra é tranquilizadora, mas não demonstra segurança universal. O estudo dependeu de relatos e registros clínicos, teve amostra relativamente pequena e não foi desenhado para detectar reações raras. Produtos com THC podem ainda afetar atenção, coordenação, memória e capacidade de dirigir.

Por que o estudo não prova eficácia

Sem grupo placebo, não é possível separar o efeito do produto da expectativa, do acompanhamento clínico, de mudanças simultâneas na rotina ou da oscilação natural da insônia. Pessoas que procuram e financiam tratamento privado também podem diferir de outros pacientes. Cerca de 58% já usavam cannabis no início, o que limita a aplicação dos resultados a pessoas sem experiência prévia.

Há ainda conflitos de interesse relevantes: vários autores eram empregados ou profissionais da Curaleaf Clinic, proprietária do registro. A declaração transparente não invalida a pesquisa, mas reforça a necessidade de reprodução independente.

Os próprios autores concluem que ensaios clínicos randomizados são necessários para confirmar eficácia e segurança. Essa é a diferença entre evidência de mundo real e uma comparação controlada: o registro mostra o que aconteceu com um grupo tratado; o ensaio tenta responder quanto aconteceu por causa do tratamento.

O que isso muda para quem tem insônia

O trabalho sustenta uma hipótese importante: alguns pacientes com insônia resistente a tratamentos anteriores podem relatar benefício durante acompanhamento médico com produtos padronizados. Ele não autoriza automedicação, não define um produto ideal e não coloca cannabis como primeira escolha para toda insônia.

A terapia cognitivo-comportamental para insônia permanece tratamento de primeira linha em muitas diretrizes. Antes de qualquer prescrição, é necessário investigar causas como apneia, ansiedade, depressão, dor, medicamentos, álcool, rotina irregular e carga de treinamento.

Para atletas, o cuidado é adicional. THC e outros canabinoides permanecem proibidos em competição pelas regras antidopagem, enquanto o CBD isolado é permitido, mas pode sofrer contaminação. Um produto usado para dormir pode permanecer detectável além da percepção subjetiva de seus efeitos.

Um sinal promissor, não uma resposta final

O mérito do estudo é acompanhar pacientes por um período mais longo que muitos ensaios e registrar resultados em condições clínicas reais. A limitação é justamente não controlar essas condições. A melhora subjetiva observada é relevante para formular perguntas melhores, mas não deve virar promessa terapêutica.

A mensagem responsável é dupla: houve associação entre o tratamento e melhora autorrelatada de sono, ansiedade e qualidade de vida; e ainda faltam estudos controlados, independentes e maiores para saber quais pacientes se beneficiam, com qual formulação, em que dose e com quais riscos.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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