Estudo com atletas de elite revela silêncio sobre cannabis dentro das equipes
Dez atletas atuais ou aposentados de esportes de contato relataram uso, estigma, informação insuficiente e pouca confiança para conversar com equipes médicas. O estudo não mede eficácia, mas expõe uma falha de segurança.

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
Publicado em 31 de ago. de 2026
Atualizado em 31/08/2026

A cannabis já faz parte da vida de alguns atletas de elite, mas nem sempre entra na conversa com quem cuida da saúde deles. Um estudo qualitativo publicado em julho de 2026 identificou medo de julgamento, falta de informação confiável e pouca confiança na comunicação com equipes médicas entre atletas atuais e aposentados de esportes de contato.
A pesquisa não responde se cannabis melhora dor, sono, recuperação ou desempenho. Seu valor está em outro lugar: mostrar que o silêncio pode impedir uma avaliação completa de segurança, composição do produto, interações e regras esportivas.
Quem participou do estudo
Os pesquisadores realizaram dez entrevistas semiestruturadas com atletas atuais ou aposentados ligados a ligas profissionais e universitárias, incluindo NHL, NFL, NBA, AHL, NCAA e USports. As transcrições foram analisadas por um método qualitativo para identificar padrões recorrentes.
Cinco temas principais apareceram: atletas usam cannabis; falta educação baseada em evidências; o estigma e o medo de julgamento persistem; existe confiança limitada na comunicação com profissionais das equipes; e leis, políticas e respostas das organizações são inconsistentes.
O número de participantes é pequeno e a amostra se concentra em esportes de contato da América do Norte. Portanto, não é correto afirmar que os resultados representam todos os atletas, todas as modalidades ou o contexto brasileiro. Estudos qualitativos ajudam a entender experiências e barreiras; não medem prevalência nem comprovam benefício clínico.
O que os atletas disseram buscar
Nas entrevistas, participantes relataram uso recreativo e também motivos como dor, sono, recuperação e saúde mental. Esses são relatos de experiência, não demonstrações de que o tratamento funciona para esses objetivos.
A distinção importa porque uma experiência positiva pode gerar uma narrativa forte, mas não substitui ensaio clínico, avaliação individual ou acompanhamento profissional. O estudo mostra o que alguns atletas pensam e fazem; não valida dose, produto, horário de uso ou resultado terapêutico.
Por que o silêncio pode aumentar o risco
Quando o atleta omite o uso de cannabis ou canabinoides, o profissional perde informações relevantes para avaliar sedação, efeitos adversos, interações com medicamentos, procedência do produto e impacto em atividades que exigem atenção e coordenação. Também fica mais difícil separar uso recreativo, automedicação e tratamento acompanhado.
O problema não se resolve apenas dizendo ao atleta que ele deve falar. As entrevistas indicam que a qualidade da escuta também importa. Se a conversa começa com julgamento, ameaça ou desinformação, o atleta tende a proteger a própria carreira e evitar o tema. Confidencialidade, limites claros e conhecimento técnico são condições para uma comunicação útil.
Equipe médica não é a única regra do jogo
Mesmo quando existe acompanhamento clínico, atletas sujeitos ao controle de dopagem precisam verificar as normas da modalidade e da organização responsável. A Lista Proibida de 2026 da Agência Mundial Antidopagem mantém os canabinoides, com exceção do canabidiol, proibidos em competição. A exceção do CBD não transforma qualquer produto em opção sem risco, porque outras substâncias podem estar presentes na formulação.
Quando um tratamento necessário envolve uma substância ou método proibido, pode ser necessária uma Autorização de Uso Terapêutico. A Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem orienta que o processo exige documentação clínica e análise especializada. Receita e AUT não são o mesmo documento, e a autorização não deve ser presumida.
Nada disso significa que os dez participantes do estudo tenham cometido violação antidopagem. A pesquisa não foi desenhada para investigar testes ou sanções. As regras entram como contexto prático para atletas brasileiros que reconhecem no estudo a mesma dificuldade de conversar dentro de suas equipes.
O que uma conversa responsável deveria incluir
Uma conversa segura começa pela identificação do produto e do objetivo relatado: qual é a formulação, de onde veio, quem acompanha o caso e quais outros medicamentos ou suplementos estão em uso. Para quem compete, também é necessário esclarecer modalidade, calendário, entidade antidopagem e eventual necessidade de AUT.
O profissional deve diferenciar evidência, hipótese e experiência pessoal. O atleta, por sua vez, precisa informar mudanças percebidas, efeitos indesejados e qualquer impacto em treino, direção, trabalho ou competição. Nenhuma dessas etapas autoriza prescrição improvisada nem promessa de performance.
O estudo fala menos sobre cannabis e mais sobre confiança
A descoberta mais útil não é que alguns atletas usam canabinoides — isso já vinha sendo relatado. O ponto é que informação fragmentada e medo de julgamento empurram decisões de saúde para fora do ambiente em que deveriam ser avaliadas.
Reduzir estigma não significa promover uso. Significa criar condições para que riscos, limites e necessidades reais sejam discutidos antes de um problema. Para o Atleta Cannabis, comunicação responsável é parte da segurança: o paciente precisa conseguir falar, e o profissional precisa saber ouvir e orientar dentro de sua competência.
Fernando Paternostro atua como atleta, paciente, comunicador e conector entre pacientes e médicos prescritores. Ele não realiza diagnóstico, prescrição ou orientação clínica individualizada.
Fontes
Thompson ES et al. Inside the Minds of Professional and Elite Athletes: A Qualitative Exploration of Perspectives on Cannabinoid Use in Contact Sports. Sports Health. Publicado online em 7 de julho de 2026. DOI: 10.1177/19417381261460194. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42415393/
University of Saskatchewan. The Knowledge, Opinions and Perspectives of Elite Contact Sport Athletes and Their Medical Staff Regarding Cannabinoid Use: A Mixed Methods Study. Repositório institucional. https://harvest.usask.ca/items/590f44b1-5f0a-4271-9d9b-fa1443c1ceae
Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. Você sabe o que é a Autorização de Uso Terapêutico e quando ela é necessária para atletas? Publicado em 12 de agosto de 2026. https://www.gov.br/abcd/pt-br/noticias/voce-sabe-o-que-e-a-autorizacao-de-uso-terapeutico-e-quando-ela-e-necessaria-para-atletas
World Anti-Doping Agency. 2026 Prohibited List, seção S8 — Cannabinoids. https://www.wada-ama.org/sites/default/files/2025-09/2026list_en_final_clean_september_2025.pdf
Aviso
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.Fontes e referências
Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.
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