Bob Burnquist: das megarrampas à defesa da cannabis no esporte
Maior medalhista da história dos X Games transformou décadas de quedas e fraturas em uma defesa pública por pesquisa, regulação e acesso responsável à cannabis medicinal

Fernando Paternostro
Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
29 de jul. de 2026

Poucos atletas encarnam o skate como Bob Burnquist. Dez vezes campeão mundial e recordista histórico dos X Games, com 30 medalhas, o brasileiro ajudou a ampliar os limites técnicos do vertical e da megarrampa. Sua trajetória também foi marcada pelo custo físico desse pioneirismo: quedas de grande impacto, cirurgias e dezenas de fraturas.
Foi a partir dessa experiência que Bob passou a falar publicamente sobre cannabis. Em entrevistas, o skatista relatou ter recorrido ao canabidiol durante a carreira para lidar com dores e lesões, em um contexto no qual medicamentos opioides também fazem parte da recuperação de traumas graves. Esse é um relato pessoal — não uma recomendação de tratamento —, mas tornou-se o ponto de partida de uma atuação que conectou esporte, pesquisa e regulação.
Da experiência pessoal à pauta pública
Em 2019, quando ainda presidia a Confederação Brasileira de Skate, Bob anunciou que queria estimular estudos e organizar uma comissão para discutir a presença da cannabis nas regras antidoping. Ele defendia que o tema fosse tratado com evidência e diferenciação entre uso terapêutico, uso adulto e melhora artificial de desempenho. Ao mesmo tempo, orientava atletas a cumprir as regras vigentes.
A posição ganhou peso simbólico porque veio de um atleta cuja carreira foi construída em uma modalidade de alto impacto. Em vez de associar cannabis a fumo ou performance, Bob passou a enquadrá-la como tema de saúde, recuperação e redução de danos — sempre sujeito a avaliação profissional e às normas esportivas.
O skate virou olímpico, mas o debate continua
O skate estreou no programa olímpico em Tóquio 2020, realizado em 2021, e entrou definitivamente no centro do esporte de alto rendimento. A mudança aumentou a relevância das regras da Agência Mundial Antidoping, a Wada, para atletas da modalidade.
Na Lista Proibida de 2026, os canabinoides naturais e sintéticos continuam proibidos em competição. O canabidiol, ou CBD, aparece como exceção. Isso não significa risco zero: produtos de CBD podem conter outros canabinoides, inclusive THC, por contaminação ou rotulagem imprecisa. Para atletas testados, qualquer decisão deve passar por profissionais habilitados e pela verificação das regras aplicáveis.
Instituto e empreendedorismo ampliam a conversa
A atuação de Bob avançou também por duas frentes. O Instituto Bob Burnquist nasceu com iniciativas ligadas a esporte, saúde e inclusão social. Já a Farmaleaf, projeto empresarial criado com parceiros, levou sua experiência com plantas e recuperação para uma proposta de bem-estar e terapias acompanhadas por profissionais. Em 2025, o próprio skatista voltou a apresentar publicamente a plataforma como resultado de décadas de aprendizado com lesões e recuperação.
Essas iniciativas não tornam a cannabis uma solução universal nem substituem evidência clínica. Elas mostram, porém, como um dos maiores nomes do skate decidiu usar sua influência para deslocar o assunto do estigma para a pesquisa, a educação e a responsabilidade.
O legado também está fora da pista
Bob Burnquist já havia mudado o skate com criatividade, longevidade e disposição para desafiar limites. Na cannabis, seu papel é diferente: não o de prescrever, mas o de abrir espaço para perguntas que o esporte ainda precisa responder. Quais substâncias realmente configuram vantagem competitiva? Como proteger atletas sem bloquear tratamentos legítimos? Como ampliar pesquisa e acesso sem banalizar riscos?
A força dessa história está justamente na passagem da experiência individual para o debate coletivo. Um campeão acostumado a cair, levantar e tentar outra vez agora usa sua voz para defender que dor, recuperação e cannabis sejam discutidas com menos preconceito e mais ciência.
Aviso
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.Fontes e referências
Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.
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