Atleta Cannabis
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Como adaptei meu tratamento com cannabis para o Ironman 70.3 São Paulo sem perder de vista o antidoping

Na preparação para meu 15º Ironman 70.3, conciliei tratamento individualizado, pausa dos canabinoides proibidos em competição e uma estratégia conservadora com CBD sob orientação médica.

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 19 de set. de 2026

Atualizado em 19/09/2026

Fernando Paternostro cruza a linha de chegada do Ironman 70.3 São Paulo de 2025

Esta será minha 15ª prova de Ironman 70.3. Também já completei três Ironmans de distância completa. A experiência acumulada me ensinou que uma boa preparação não depende de uma solução isolada: ela reúne treino, descanso, alimentação, estratégia e cuidado médico.

A cannabis medicinal faz parte do meu tratamento. Mas, quando uma competição se aproxima, há outra responsabilidade que não pode ser ignorada: entender as regras antidoping e adaptar o tratamento com antecedência. Foi isso que fiz para o Ironman 70.3 São Paulo, sempre sob acompanhamento do meu médico, Dr. José Wilson Andrade.

Este texto é um relato pessoal, não uma recomendação de protocolo. As fórmulas, os horários, a pausa e a dose foram definidos para o meu caso. Não devem ser copiados por outro atleta.

Como era meu protocolo durante a preparação?

Na maior parte do ciclo de treinos, meu tratamento incluía diferentes formulações em momentos distintos do dia. Cada uma tinha um objetivo discutido com meu médico, e o que descrevo abaixo é a minha percepção individual — não uma promessa de efeito para outras pessoas.

Antes dos treinos, eu utilizava uma formulação com CBD e CBG. A intenção era favorecer clareza mental, foco e manejo da resposta inflamatória. A pesquisa esportiva com canabinoides ainda é limitada, e estudos controlados com CBD não encontraram efeito claro e consistente sobre inflamação, desempenho ou recuperação.

Logo após o treino, usava THCV com o objetivo de apoiar minha disposição e o controle do apetite. Esse é um ponto que exige cuidado: ainda não há evidência clínica robusta que permita generalizar esses efeitos para atletas. Além disso, o THCV é um canabinoide e, diferentemente do CBD, está dentro da classe proibida em competição pela WADA.

No almoço, entrava o CBD full spectrum, dentro do tratamento voltado ao controle da ansiedade e ao equilíbrio geral do organismo. “Full spectrum” significa que a formulação preserva vários componentes da planta, podendo incluir outros canabinoides. Isso é relevante para o cuidado clínico e também para o antidoping.

À noite, aproximadamente 45 minutos antes de dormir, utilizava CBN isolado como parte da estratégia para o sono. Minha meta era dormir melhor e favorecer uma recuperação mais reparadora. A ciência sobre CBN e arquitetura do sono ainda está em construção: um pequeno ensaio de 2026 encontrou alguns sinais em medidas de sono, mas não demonstrou uma melhora geral do sono REM e não autoriza promessas.

O que foi meu T-break antes da prova?

Vinte e cinco dias antes da competição, iniciei o que costumo chamar de T-break. A expressão vem de “tolerance break” e normalmente descreve uma pausa no uso de cannabis ou de determinados canabinoides. No meu caso, porém, o objetivo central foi antidoping: interromper, com orientação médica, os canabinoides que não são permitidos no período de competição.

A Lista Proibida 2026 da Agência Mundial Antidoping, a WADA, coloca os canabinoides naturais e sintéticos na classe S8, proibida em competição. A exceção expressa é o canabidiol, o CBD. CBG, CBN, THCV e THC, portanto, não recebem essa exceção.

É importante não transformar os meus 25 dias em uma regra. O tempo de eliminação varia conforme substância, formulação, frequência de uso, dose, metabolismo e outros fatores. Uma pausa de determinada duração não garante, por si só, resultado negativo em controle antidoping. Em regra, o período “em competição” começa às 23h59 do dia anterior e termina após o fim da competição e da coleta de amostras, salvo período diferente aprovado para a modalidade.

Atletas continuam sujeitos ao princípio da responsabilidade objetiva: cada pessoa responde pelo que for encontrado em sua amostra. Receita médica também não equivale automaticamente a uma Autorização de Uso Terapêutico.

Para saber mais sobre essa diferença, leia também CBD é doping? O que atletas precisam saber sobre as regras da WADA.

Por que fiquei apenas com CBD isolado?

Depois do início da pausa, mantive somente o CBD isolado prescrito para mim. A adaptação não foi simples. Eu percebi diferença em relação às formulações com vários componentes e senti falta do que muitas pessoas chamam de efeito entourage.

O “efeito entourage” é a hipótese de que canabinoides, terpenos e outros componentes da planta possam interagir e modular os efeitos uns dos outros. É uma ideia biologicamente plausível e muito citada na cannabis medicinal, mas revisões apontam evidência clínica limitada e resultados contraditórios. No meu caso, estou descrevendo uma percepção: não uma comprovação científica.

Mesmo sentindo essa diferença, preferi seguir uma estratégia mais conservadora. Para mim, era melhor manter apenas o CBD isolado definido pelo médico do que insistir em formulações com outros canabinoides perto da prova.

Ainda assim, “CBD isolado” no rótulo não significa risco zero. A WADA permite a molécula CBD, não aprova marcas nem certifica produtos. Contaminação, erro de rotulagem ou traços de outros canabinoides continuam sendo riscos. Por isso, procedência, laudo do lote e avaliação profissional são tão importantes para o atleta.

Qual é o plano para a prova e o que é a T2?

Meu plano individual prevê 100 mg de CBD isolado na T2. No triatlo, T2 é a segunda transição: o momento em que termino os 90 quilômetros de ciclismo, deixo a bicicleta e me preparo para os 21,1 quilômetros de corrida.

A intenção discutida com meu médico é usar o CBD nesse ponto para ajudar no manejo da minha percepção de desgaste e da preocupação com câimbras na etapa final. Isso precisa ser dito com precisão: não existe evidência clínica suficiente para afirmar que 100 mg de CBD previnam ou controlem câimbras durante um 70.3, nem que melhorem o desempenho. O plano não substitui hidratação, eletrólitos, estratégia de ritmo, alimentação ou avaliação médica.

Pela Lista Proibida 2026, o CBD não é uma substância proibida. Mas isso não torna qualquer óleo de CBD automaticamente “aprovado pela WADA”. Para reduzir risco, o produto precisa ser realmente isolado e ter controle de qualidade e laudo compatíveis com o lote utilizado. Mesmo assim, a responsabilidade final continua sendo do atleta.

Por que escolhi contar tudo isso?

Porque falar de cannabis no esporte também é falar de responsabilidade. Eu sou atleta amador, paciente e fundador do Atleta Cannabis — não sou médico nem prescritor. Meu papel aqui é narrar como fiz, quais cuidados adotei e onde estão os limites.

Chego ao meu 15º Ironman 70.3 com três Ironmans completos na bagagem e com a mesma preocupação de sempre: competir respeitando meu corpo, meu tratamento e as regras. Depois da prova, a orientação é retomar meu tratamento habitual conforme o planejamento do Dr. José Wilson Andrade.

O protocolo descrito nesta matéria foi feito sob medida para mim. Só um médico pode avaliar histórico, sintomas, outros medicamentos, riscos, objetivos terapêuticos e exigências esportivas antes de montar uma estratégia desse tipo. Se você é atleta e considera cannabis medicinal, procure um médico qualificado e confira as regras antidoping aplicáveis à sua competição. Para conhecer a proposta editorial e os limites deste projeto, visite também Comece aqui e Sobre o Atleta Cannabis.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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