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Sabalenka interrompe jogo no US Open por cheiro de cannabis — e expõe uma nova tensão no esporte

A número 1 do mundo reclamou do odor durante uma partida em Nova York. O episódio, repetido por outras tenistas, mostra que legalização, convivência e alto rendimento são debates diferentes.

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 18 de set. de 2026

Atualizado em 18/09/2026

Tenista interrompe uma partida em quadra dura e gesticula em direção ao árbitro de cadeira

Aryna Sabalenka parou brevemente sua partida de terceira rodada no US Open de 2026 depois de sentir um forte cheiro de cannabis na quadra. A cena ocorreu em 4 de setembro, no Louis Armstrong Stadium, em Nova York, enquanto a líder do ranking enfrentava Kamilla Rakhimova. Sabalenka falou com a árbitra de cadeira e pediu que algo fosse feito porque o odor estava muito forte. Em seguida, venceu por 6/3 e 6/4.

A imagem é curiosa e altamente compartilhável, mas o fato exige precisão: Sabalenka não identificou quem estaria fumando. Depois da partida, disse não saber se o cheiro vinha da arquibancada ou de fora do estádio, levado pelo vento. Também não há qualquer indicação de consumo pela atleta.

O que aconteceu com Sabalenka no US Open?

O episódio aconteceu no início da partida, quando Sabalenka vencia por 3/0. Segundo o relato do The Guardian, ela se aproximou da árbitra Eva Asderaki-Moore e avisou que alguém estava fumando maconha e que o cheiro era muito forte. A interrupção foi curta e o jogo continuou normalmente.

Na entrevista posterior, a tenista tratou o momento com humor, mas deixou clara a preocupação esportiva: para ela, lidar com aquele odor enquanto tentava competir no melhor nível era complicado. A reclamação não foi moralista nem se transformou em acusação. Foi uma atleta pedindo controle sobre uma distração ambiental durante uma partida de Grand Slam.

Esse detalhe muda o tom da história. O assunto não é se cannabis deveria voltar a ser criminalizada nem se todo odor representa risco de intoxicação. O ponto imediato é mais simples: um evento esportivo pode estabelecer limites de convivência mesmo em uma cidade onde o uso adulto foi legalizado.

Sabalenka não foi a única a reclamar

Dias antes, a britânica Katie Boulter já havia dito que o cheiro era frequente nas quadras de treino e que a distraía. Fran Jones contou que percebeu o mesmo em uma edição anterior, enquanto Harriet Dart resumiu a situação como parte do ambiente de Nova York.

A BBC Sport, em reportagem reproduzida pelo Yahoo Sports, tratou o odor como uma questão persistente do torneio. Jogadores como Nick Kyrgios, Maria Sakkari e Alexander Zverev já haviam comentado o tema em anos anteriores. Em 2023, uma reportagem da Associated Press descreveu a Quadra 17 como especialmente exposta ao cheiro vindo das áreas próximas.

O padrão importa mais do que um episódio isolado. Quando diferentes atletas, em temporadas diferentes, mencionam o mesmo fator, o cheiro de cannabis deixa de ser apenas uma curiosidade viral e passa a fazer parte da discussão sobre ambiente de competição.

É permitido fumar cannabis no US Open?

Não. O guia oficial do US Open informa que o USTA Billie Jean King National Tennis Center é uma instalação livre de fumaça e proíbe também cigarros eletrônicos. A organização afirma que monitora seu perímetro, mas reconhece que não controla o que acontece fora do complexo.

Nova York legalizou a posse e o uso adulto de cannabis para maiores de 21 anos, dentro de limites. Isso não equivale a permissão para fumar em qualquer lugar. O Office of Cannabis Management do estado informa que cannabis não pode ser consumida onde o tabaco é proibido e destaca a proibição de fumar cannabis e tabaco em parques estaduais e outros espaços públicos ao ar livre.

Portanto, a oposição entre “legal” e “proibido” é simplista. Uma substância pode ser legal para adultos e continuar sujeita a regras de local, horário e convivência — como ocorre com álcool e tabaco. Legalização não elimina limites; ela transfere parte do debate da polícia para a regulação e para a responsabilidade social.

O que o episódio diz sobre a normalização da cannabis?

O cheiro ter se tornado um tema recorrente em um dos maiores torneios de tênis do mundo revela o quanto a cannabis entrou no cotidiano de Nova York. Ela já não aparece apenas em debates médicos, processos criminais ou mercados clandestinos. Está presente no espaço urbano, na economia e nas regras de convivência.

Mas normalização não é ausência de conflito. Quanto mais a cannabis se torna visível, mais aparecem perguntas práticas: onde o consumo cabe, como evitar exposição involuntária, quais espaços devem ser livres de fumaça e como conciliar escolhas individuais com ambientes de trabalho e competição.

Essa é uma conversa mais madura do que celebrar qualquer uso ou condenar qualquer cheiro. No caso do US Open, a reclamação dos atletas é compatível com a legalização: reconhecer direitos de adultos não obriga uma competidora a aceitar fumaça ou odor intenso durante uma partida.

E o Brasil nessa conversa?

A comparação com o Brasil precisa evitar atalhos. Nova York discute os efeitos cotidianos de um mercado adulto legalizado; o Brasil ainda organiza, em frentes distintas, regras sanitárias para produtos medicinais, acesso de pacientes e o debate legislativo sobre outros usos. São realidades regulatórias diferentes.

O episódio ajuda menos como modelo a copiar e mais como sinal do que vem depois do debate abstrato. Quando a cannabis deixa de ser apenas tabu, surgem problemas concretos de política pública, consumo responsável, espaços compartilhados e proteção de terceiros. Avançar na regulação significa também desenhar esses limites com clareza.

Para atletas, existe ainda outra camada. Legalidade civil, prescrição médica e regra esportiva não são equivalentes. Quem compete sob controle antidopagem precisa saber que o THC e outros canabinoides permanecem proibidos em competição, enquanto o CBD é a exceção expressa — e que produtos podem apresentar risco de contaminação ou rotulagem imprecisa. Leia o guia sobre CBD, THC e esporte: https://www.atletacannabis.com/artigos/cbd-vs-thc-esporte-diferencas-riscos

Também vale entender por que receita médica não substitui uma eventual Autorização de Uso Terapêutico: https://www.atletacannabis.com/artigos/cannabis-medicinal-aut-atleta

E, para separar promessa de evidência, veja o panorama sobre CBD no esporte brasileiro: https://www.atletacannabis.com/artigos/cbd-esporte-brasileiro-potencial-limites-seguranca

O que fica depois da cena viral

Sabalenka não fez um discurso contra a cannabis. Pediu condições para competir. A distinção é essencial. O episódio mostra uma sociedade em transição: a cannabis pode estar normalizada o suficiente para seu cheiro alcançar uma quadra de Grand Slam e, ao mesmo tempo, continuar limitada por regras de convivência e desempenho profissional.

Para o Brasil, a lição não é importar o cenário de Nova York nem usar uma reclamação esportiva como argumento automático a favor ou contra a regulação. É observar que regular também significa enfrentar a vida real: acesso, fiscalização, educação, redução de danos, proteção de terceiros e fronteiras claras para cada ambiente.

Quer acompanhar a transformação da cannabis no esporte sem sensacionalismo? Continue pela seção Esporte & Cultura do Atleta Cannabis: https://www.atletacannabis.com/artigos

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