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Cannabis e transtornos alimentares: o que um grande estudo revela — e o que ainda não prova

Pesquisa com mais de 7 mil participantes encontrou relatos positivos sobre a cannabis, mas não testou tratamentos nem demonstrou eficácia clínica

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 16 de set. de 2026

Atualizado em 16/09/2026

Atleta de corrida sentada ao lado da pista com um lanche de recuperação após o treino

Uma pesquisa internacional publicada em julho de 2025 na revista científica JAMA Network Open investigou como pessoas com transtornos alimentares avaliam medicamentos prescritos e substâncias consumidas sem prescrição. Entre os participantes que usaram cannabis, a substância recebeu uma das avaliações médias mais favoráveis para o alívio percebido de sintomas alimentares. Psicodélicos como psilocibina e LSD também foram bem avaliados.

O resultado exige uma leitura cuidadosa. O estudo não administrou cannabis aos participantes, não comparou formulações, não controlou doses e não acompanhou a evolução clínica dos transtornos. Foi uma pesquisa on-line baseada em experiências autorrelatadas — útil para identificar sinais e formular novas perguntas, mas insuficiente para concluir que a cannabis seja um tratamento eficaz ou seguro.

A principal mensagem científica não é que a cannabis trata transtornos alimentares. É que um número relevante de pessoas já usa a substância e percebe algum benefício, enquanto os efeitos parecem variar conforme o diagnóstico. Isso justifica estudos clínicos mais rigorosos e reforça a necessidade de cuidado médico, psicológico e nutricional individualizado.

Como o estudo foi realizado

A pesquisa MED-FED foi conduzida por pesquisadores ligados à Universidade de Sydney, na Austrália, e divulgada por redes sociais, fóruns on-line e serviços clínicos. Entre novembro de 2022 e maio de 2023, foram recrutados 7.648 adultos que declararam viver com um transtorno alimentar ou algum padrão de alimentação desordenada. Desse total, 6.612 completaram a parte demográfica e 5.123 chegaram ao fim de todo o questionário.

A amostra tinha idade média de 24,3 anos e era formada majoritariamente por mulheres: elas correspondiam a 94% dos respondentes. A maior parte vivia na Austrália, no Reino Unido ou nos Estados Unidos.

Entre os 6.612 participantes com dados demográficos completos, 40,8% relataram anorexia nervosa; 19%, bulimia nervosa; 11,4%, transtorno da compulsão alimentar periódica; e 8,9%, transtorno alimentar restritivo/evitativo, conhecido pela sigla ARFID. Outros 37,7% não possuíam diagnóstico formal. As categorias podiam se sobrepor, por isso os percentuais não devem ser simplesmente somados.

Os participantes informaram quais medicamentos e substâncias haviam utilizado nos 12 meses anteriores. Depois, avaliaram três aspectos em uma escala de cinco pontos: possível melhora dos sintomas alimentares, benefício geral para a saúde mental e presença de efeitos desagradáveis. Foram examinados medicamentos psiquiátricos prescritos e substâncias como cafeína, álcool, nicotina, cannabis, psicodélicos, estimulantes, opioides, MDMA e cetamina.

O que apareceu nos resultados

A cannabis foi utilizada no ano anterior por 3.018 dos 5.383 participantes que responderam a essa parte do questionário, o equivalente a 56,1%. Entre esses usuários, 42,1% disseram consumir cannabis diariamente. Esse dado merece atenção porque demonstra que a pesquisa não observou apenas experiências ocasionais: uma parcela expressiva mantinha uso frequente.

Na escala que variava de −2 a +2, cannabis e psilocibina receberam média de 0,50 para melhora percebida dos sintomas alimentares. Foram as maiores médias gerais registradas nesse quesito. O LSD apareceu em seguida, com 0,33.

Esses valores representam avaliações subjetivas, não uma medida clínica de recuperação. O questionário não verificou, por exemplo, remissão diagnóstica, manutenção do peso, normalização de exames, redução de internações ou melhora sustentada da relação com a alimentação. Os medicamentos prescritos, embora geralmente não tenham recebido avaliações tão positivas para os sintomas alimentares, foram mais bem avaliados quanto aos benefícios gerais para a saúde mental.

O levantamento também confirmou que os transtornos alimentares raramente aparecem isolados. Cerca de 94% dos participantes relataram alguma comorbidade e 65,5% informaram depressão. A publicação científica completa está em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12284744/

Cannabis não produziu o mesmo relato em todos os diagnósticos

Um dos aspectos mais importantes do trabalho é que transtornos alimentares não formam uma única condição. Anorexia nervosa, bulimia nervosa, compulsão alimentar e ARFID apresentam sintomas, mecanismos e riscos diferentes. Uma substância que aumenta o valor percebido ou o prazer associado à comida pode ser experimentada de formas completamente distintas por pessoas com restrição alimentar e por aquelas que enfrentam episódios de compulsão.

Na interpretação dos autores, a cannabis poderia ser percebida como benéfica por algumas pessoas com anorexia nervosa ou ARFID por aumentar o valor hedônico da alimentação — isto é, tornar a experiência de comer mais prazerosa ou menos aversiva.

A avaliação não foi igualmente favorável entre pessoas com bulimia ou transtorno da compulsão alimentar. Nesses grupos, os autores levantam a hipótese de que o aumento do apetite possa intensificar episódios de compulsão e, no caso da bulimia, contribuir para o ciclo de compulsão e comportamentos compensatórios. Essa diferença é fundamental: falar genericamente que cannabis ajuda transtornos alimentares apaga diagnósticos distintos e pode transformar uma associação exploratória em recomendação perigosa.

Relato de melhora não é comprovação de tratamento

A pesquisa escuta uma população numerosa e registra experiências que podem não aparecer em ensaios clínicos tradicionais. Ainda assim, seu desenho não permite estabelecer causa e efeito. Quem relatou melhora pode ter usado cannabis simultaneamente com psicoterapia, acompanhamento nutricional, medicamentos ou outras intervenções. Pessoas com experiências positivas também podem ter tido maior interesse em responder.

O estudo não confirmou clinicamente todos os diagnósticos; dependeu da memória e da percepção dos participantes; concentrou-se em países de alta renda e língua inglesa; não padronizou produto, dose, composição, frequência ou via de administração; não distinguiu de forma controlada THC, CBD e outros componentes; e pode ter sido influenciado por expectativas. Os próprios autores classificaram os resultados como exploratórios, não definitivos.

O que os ensaios anteriores mostram sobre anorexia nervosa

Uma revisão sistemática publicada em 2021 encontrou apenas dois ensaios clínicos originais sobre canabinoides na anorexia nervosa. Um deles observou que o dronabinol — uma forma sintética de THC — esteve associado a aproximadamente um quilo adicional de ganho de peso em quatro semanas, na comparação com placebo. O outro, com THC em dose mais alta, não encontrou benefício e registrou efeitos adversos que podem ter prejudicado o resultado.

A conclusão foi direta: havia poucos estudos e o nível de evidência era baixo. Ganhar peso, embora possa integrar a recuperação nutricional, não significa necessariamente tratar medo de engordar, insatisfação corporal, comportamentos compensatórios e outros componentes psicológicos da anorexia. A revisão está em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32240516/

Em março de 2026, surgiu um dado adicional. Um pequeno ensaio duplo-cego distribuiu 32 mulheres com anorexia nervosa ou anorexia atípica entre CBD e placebo durante 21 dias. O grupo que recebeu CBD apresentou um sinal estatístico favorável ao aumento do índice de massa corporal. Algumas medidas relacionadas à preocupação com a forma corporal e à sensação de perda de controle também se moveram em direção favorável, mas não atingiram significância estatística.

O estudo avaliou somente 16 participantes em cada grupo e durou três semanas. Seus autores afirmam que os resultados precisam ser reproduzidos em uma amostra maior. Portanto, ele representa um sinal inicial de segurança e possível efeito — não confirmação de eficácia. Os dados estão em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906184/ Também é importante não misturar substâncias diferentes: CBD, THC, dronabinol e produtos de cannabis com múltiplos componentes não são equivalentes.

O sistema endocanabinoide explica a hipótese, mas não comprova o tratamento

O interesse científico pelos canabinoides está relacionado ao sistema endocanabinoide, uma rede de receptores, moléculas produzidas pelo organismo e enzimas envolvida em funções como apetite, recompensa, humor, estresse e equilíbrio energético. Pesquisas identificaram alterações em componentes desse sistema em pessoas com anorexia nervosa. Isso fornece uma justificativa biológica para investigar intervenções, mas não significa que administrar cannabis ou um canabinoide corrigirá essas alterações.

Uma revisão de escopo publicada em 2023 reuniu 15 estudos sobre sistema endocanabinoide, tratamento com canabinoides e uso de cannabis na anorexia. Alguns trabalhos relataram ganho de peso, melhora de sintomas ou redução da atividade física excessiva. Outros não observaram benefício, e alguns encontraram aumento da atividade física ou mudanças desfavoráveis em hormônios relacionados ao tecido adiposo. A análise está em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37858278/

Para conhecer essa base biológica, leia também https://www.atletacannabis.com/artigos/sistema-endocanabinoide-explicado-para-atletas

O sinal de uso problemático não pode ser ignorado

Quase metade dos participantes que responderam à pergunta — 49,3% — acreditava ter algum problema com pelo menos uma substância. Além disso, 15,2% informaram dependência de drogas como condição associada e 9,3% relataram uso problemático ou dependência de álcool. Cannabis estava entre as substâncias mais citadas quando os participantes foram questionados sobre uso problemático. Muitos usuários diários que percebiam benefício também reconheciam problemas relacionados ao consumo.

Uma pessoa pode perceber alívio imediato de ansiedade, aversão à comida ou desconforto emocional e, ao mesmo tempo, desenvolver prejuízos associados ao uso frequente. Produtos ricos em THC ainda podem alterar atenção, memória, coordenação e tempo de reação, além de provocar ansiedade, paranoia e sintomas psicóticos em pessoas vulneráveis. Em tratamentos que envolvem outros medicamentos, também é preciso considerar efeitos somados e possíveis interações. Veja https://www.atletacannabis.com/artigos/cbd-vs-thc-esporte-diferencas-riscos

Por que esse debate importa para atletas

Transtornos alimentares e padrões de alimentação desordenada também aparecem no esporte. Pressão estética, categorias de peso, cobrança por baixo percentual de gordura e a ideia de que estar mais leve sempre melhora o desempenho podem favorecer restrição alimentar e comportamentos compensatórios. O problema não afeta apenas mulheres nem somente atletas profissionais.

Quando a ingestão energética permanece insuficiente diante do gasto do treinamento, pode surgir baixa disponibilidade energética e, em alguns casos, deficiência relativa de energia no esporte, conhecida como REDs. O consenso do Comitê Olímpico Internacional descreve possíveis consequências para saúde óssea, sistema hormonal, imunidade, função cardiovascular, saúde mental e desempenho. O documento está em https://doi.org/10.1136/bjsports-2023-106994

Nessa população, estimular o apetite não resolve automaticamente baixa disponibilidade energética, medo de ganho de peso, compulsão, exercício excessivo ou insatisfação corporal. Também não substitui um plano de realimentação e o acompanhamento da saúde física e psicológica. Para atletas sujeitos ao controle antidoping, existe ainda outra questão: o THC permanece proibido em competição, e até produtos vendidos como CBD podem conter THC não declarado.

O que a ciência permite afirmar hoje

Muitas pessoas com transtornos alimentares já utilizam cannabis, inclusive diariamente. Parte delas relata alívio de determinados sintomas, e essas percepções parecem variar conforme o diagnóstico. Existem pequenos estudos clínicos com dronabinol, THC e CBD, principalmente em anorexia nervosa, mas os resultados ainda são insuficientes para estabelecer eficácia, dose, produto, duração ou perfil ideal de paciente. Praticamente não há evidência clínica sólida que permita generalizar conclusões para bulimia, compulsão alimentar, ARFID e outros diagnósticos.

O estudo de 2025 merece atenção porque revela o que pacientes estão fazendo e percebendo fora dos protocolos de pesquisa. Sua contribuição principal é indicar caminhos para futuros ensaios clínicos — não substituir esses ensaios.

Quando procurar ajuda

Transtornos alimentares são condições de saúde mental que podem produzir complicações clínicas graves. Restrição persistente, compulsões, vômitos provocados, uso de laxantes, medo intenso de ganhar peso, exercício compulsivo, desmaios, alterações menstruais, lesões por estresse e perda acentuada de peso justificam avaliação profissional. Suspeita de desidratação grave, desmaio, dor no peito, confusão, fraqueza intensa ou risco de autoagressão exige atendimento imediato.

Quem vive com um transtorno alimentar e utiliza ou considera utilizar cannabis deve conversar com uma equipe habilitada, idealmente composta por profissional médico, psicólogo ou psiquiatra e nutricionista com experiência no tema. É importante informar outros medicamentos, histórico de dependência, episódios de ansiedade, sintomas psicóticos e rotina de treinamento.

A cannabis não deve ser apresentada como solução isolada nem usada para substituir tratamento especializado. Neste momento, a evidência científica apoia investigação, acompanhamento e prudência — não uma promessa terapêutica. Veja como deve começar uma avaliação responsável em https://www.atletacannabis.com/artigos/consulta-online-cannabis-medicinal-prescricao-responsavel

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento conduzido por profissionais de saúde.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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