Cássio Rocha: da lesão que encerrou o futebol a uma nova rotina com cannabis medicinal
Ex-atleta gaúcho relata que o tratamento acompanhado, somado à retomada dos exercícios e a mudanças de hábitos, ajudou a reconstruir sua qualidade de vida

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
Publicado em 28 de jul. de 2026
Atualizado em 28/07/2026

Uma lesão não tirou de Cássio Rocha apenas a possibilidade de continuar jogando futebol. Segundo relato publicado pelo portal Sechat em janeiro de 2025, ela também abriu um período marcado por ansiedade, ganho de peso e perda de referências que organizavam sua vida desde jovem. A história do gaúcho mostra como o fim inesperado de uma trajetória esportiva pode repercutir muito além do corpo — e como a reconstrução costuma depender de um conjunto de escolhas, acompanhamento e tempo.
Morador de Torres, no litoral do Rio Grande do Sul, Cássio tinha 31 anos quando contou sua experiência. Ele jogou futebol até os 21, quando uma lesão na região do púbis encerrou o caminho competitivo. Cerca de quatro meses depois, percebeu os primeiros sinais de ansiedade. Seu peso, que era de aproximadamente 72 quilos, chegou a 89.
Quando o esporte deixa um vazio
Para muitos atletas, uma lesão grave significa mais do que dor ou afastamento. A rotina, o grupo, as metas e a própria identidade podem mudar de uma vez. No caso de Cássio, o relato associa esse momento a uma fase de ansiedade e hábitos que já não favoreciam sua saúde.
Ele também conta conviver com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH, desde a infância. Anos depois, iniciou um tratamento à base de cannabis que incluía CBD e THC, sob orientação profissional, segundo a reportagem original. É importante fazer essa distinção: trata-se de uma experiência individual, e não de uma demonstração de eficácia para todas as pessoas com ansiedade ou TDAH.
A transformação relatada por Cássio
De acordo com Cássio, a mudança não foi instantânea. Ao longo de aproximadamente um ano e meio, ele retomou gradualmente os exercícios, reorganizou a rotina e abandonou álcool e tabaco. Nesse processo, perdeu cerca de 16 quilos e voltou a sentir disposição para atividades físicas.
A cannabis medicinal aparece em seu relato como parte dessa reconstrução, ao lado das mudanças de comportamento. Ele afirma utilizar óleo de CBD e preparação de espectro completo, com presença de diferentes compostos da planta. O caso, portanto, não deve ser resumido à ideia de que uma única substância produziu todos os resultados. Redução de álcool e tabaco, retorno ao movimento, alimentação, sono, suporte profissional e passagem do tempo também podem influenciar peso, humor e qualidade de vida.
Essa leitura mais completa torna a história ainda mais relevante: tratamentos responsáveis não substituem o cuidado integral. Eles podem fazer parte de uma estratégia individualizada, com objetivos definidos e acompanhamento dos benefícios e dos efeitos indesejados.
O que a ciência permite dizer sobre ansiedade
O canabidiol vem sendo estudado em diferentes transtornos de ansiedade. Uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados publicada em 2024 encontrou resultados promissores em parte dos estudos, mas também grande variação de doses, diagnósticos e respostas. Os próprios autores destacam a necessidade de pesquisas maiores e mais padronizadas.
Isso significa que o relato de melhora de Cássio é plausível como experiência pessoal, mas não autoriza promessas. CBD e THC não são equivalentes: formulações com THC podem provocar sonolência, alteração de atenção, piora da ansiedade, taquicardia ou outros efeitos em algumas pessoas. Dose, proporção entre canabinoides, via de administração, uso de outros medicamentos e histórico clínico mudam o perfil de risco.
Cannabis não é tratamento estabelecido para TDAH
O cuidado deve ser ainda maior quando o assunto é TDAH. Uma revisão de escopo que reuniu 39 estudos concluiu que as evidências disponíveis não sustentam recomendar cannabis para o transtorno. A maior parte da literatura é observacional, e o único estudo randomizado incluído não encontrou benefício significativo no desfecho principal.
Por isso, ninguém deve substituir por conta própria um tratamento indicado para TDAH, ansiedade ou qualquer outra condição. O caminho seguro é discutir sintomas, metas e possíveis interações com profissional habilitado, além de reavaliar periodicamente se a estratégia está funcionando.
Cultivo doméstico e proteção judicial
Cássio também relatou ter obtido um salvo-conduto para cultivar cannabis e produzir seu tratamento em casa, principalmente diante do custo dos produtos. Essa proteção não equivale a uma autorização geral para o cultivo doméstico no Brasil. Trata-se de uma decisão individual, baseada nas circunstâncias e nos documentos apresentados em cada processo.
O Superior Tribunal de Justiça já reconheceu a possibilidade de salvo-conduto para cultivo exclusivamente medicinal quando há comprovação da necessidade terapêutica e documentação adequada. Em 2026, a Anvisa publicou novas regras para produção medicinal por pessoas jurídicas e associações, mas esse marco não transforma automaticamente o autocultivo individual em atividade livre de risco jurídico. Quem avalia essa via precisa de orientação médica, jurídica e técnica específica.
Uma história de retomada, não uma fórmula pronta
O ponto mais forte da trajetória de Cássio Rocha não é uma promessa de cura. É a retomada de autonomia depois de uma ruptura profunda. Ele voltou a se movimentar, mudou hábitos e encontrou uma estratégia terapêutica que, em sua percepção, contribuiu para recuperar qualidade de vida.
Para outros pacientes e ex-atletas, a lição é menos espetacular — e mais útil: resultados consistentes costumam ser construídos com acompanhamento, metas realistas, registro de sintomas, revisão de doses e atenção ao conjunto da rotina. Cannabis medicinal pode integrar esse processo em casos selecionados, mas não elimina a necessidade de diagnóstico, cuidado profissional e decisões individualizadas.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Não interrompa medicamentos nem inicie produtos à base de cannabis sem orientação de profissional habilitado.
Aviso
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.Fontes e referências
- Ex-jogador de futebol transforma sua vida com tratamento à base de cannabis medicinal — Sechat
- The Impact of Cannabidiol Treatment on Anxiety Disorders: revisão de ensaios clínicos — PubMed
- Cannabis use in ADHD: revisão de escopo — PubMed
- STJ garante salvo-conduto para cultivo de cannabis medicinal
- Anvisa publica regras para produção de cannabis medicinal
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