Provas em vez de estigma: Lukis Padu e a nova era dos atletas que usam cannabis
All-American no atletismo universitário e hoje ultramaratonista no Arizona, Lukis Padu construiu a High Runs sobre uma ideia simples: deixar o desempenho falar mais alto que o preconceito.

Fernando Paternostro
Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
24 de jul. de 2026

Lukis Padu passou a faculdade inteira sendo definido pelo relógio. All-American no atletismo, bolsista integral na University of Mount Olive, formado depois pela East Carolina University em Redação Profissional e Design de Informação, em 2023. No currículo também consta uma função que pouca gente relacionaria com alto rendimento esportivo: supervisor na UPS, cargo que ele mantém junto com uma rotina de treino de nível competitivo.
Hoje, Padu corre maratonas e provas de ultra-distância no Arizona — e carrega junto outra identidade pública: fundador da High Runs, um movimento que conecta corrida de longa distância e cannabis medicinal.
De Mount Olive à ultramaratona
A passagem de Padu pelo atletismo universitário foi de alto nível: bolsa integral, reconhecimento All-American, uma carreira construída sobre disciplina e volume de treino que poucos sustentam por anos seguidos. Depois da graduação, a mudança para provas de ultra-distância seguiu a mesma lógica — trocar a pista pela estrada e pela trilha, mantendo a mesma exigência física.
"Correr é uma das formas mais puras que tenho de me expressar", resume Padu. "É terapêutico, recompensador e honesto." A frase explica boa parte de por que ele resolveu tornar pública uma parte da própria rotina que a maioria dos atletas de alto rendimento ainda esconde.
Cardholder no Arizona, cannabis como substituição
Padu é paciente cadastrado no programa de cannabis medicinal do Arizona. A relação começou durante os períodos de isolamento da pandemia, como substituição a um consumo pesado de álcool — uma troca que ele descreve como parte de um processo mais amplo de cuidado com a própria saúde.
No dia a dia, ele usa cremes e produtos tópicos à base de cannabis para lidar com inflamação, e relata consumir cannabis antes de correr como forma de reduzir o excesso de pensamento e ganhar clareza mental durante a prova. É importante frisar: essa é a experiência pessoal de um atleta nos Estados Unidos, dentro de um programa médico específico daquele estado — não uma recomendação, e não algo equivalente às regras que valem para qualquer atleta, em qualquer país ou modalidade.
High Runs: resultado como argumento
Com a High Runs, Padu não tenta convencer ninguém através de discurso. A lógica do projeto é outra: deixar que o desempenho nas provas fale por si. Se um ultramaratonista consegue treinar, competir e evoluir enquanto é aberto sobre ser paciente de cannabis, o estigma perde parte do terreno que costuma ocupar — sem precisar de argumento nenhum além do resultado.
É uma estratégia que ecoa uma mudança maior acontecendo dentro do esporte de endurance: menos debate abstrato sobre certo ou errado, mais atletas reais mostrando como a cannabis pode fazer parte — ou não — de uma rotina de treino saudável.
O que fica da história de Lukis Padu
A trajetória de Padu não é um manual. WADA, federações nacionais e ligas locais tratam cannabis de formas muito diferentes entre si, e o que vale para um atleta amador nos Estados Unidos pode não valer para outro no Brasil, dentro de outra modalidade, sob outro regulamento.
O que fica é o convite para uma conversa mais honesta: entender que atletas de alto rendimento já lidam com cannabis dentro da própria rotina — e que essa realidade merece ciência, contexto e acompanhamento médico, não silêncio.
Fontes e referências
Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.
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