Atleta Cannabis
Esporte & Cultura4 min de leitura

THC no rugby: jogador francês tem suspensão de dois anos mantida pela Justiça

Exame registrou 194 ng/mL de carboxi-THC após uma partida; o caso mostra como consumo fora de competição ainda pode produzir um resultado adverso e uma sanção longa.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

27 de jul. de 2026

Jogador de rugby lê uma notificação sozinho no túnel após uma partida

Um jogador do Anglet Olympique Rugby Club, da França, teve mantida uma suspensão de dois anos depois de testar positivo para THC em controle realizado após uma partida da Nationale 2. O exame identificou 194 nanogramas por mililitro de carboxi-THC, metabólito usado na análise antidopagem, acima do limite de decisão de 180 ng/mL aplicado ao caso.

A sanção imposta pela Agência Francesa de Luta contra o Doping impede o atleta de participar de competições e atividades do rugby até 29 de junho de 2027. A decisão ganhou repercussão em maio de 2026, mas o controle ocorreu em janeiro de 2024 e a disputa judicial começou antes. Essa cronologia é importante: não se trata de um teste recente nem de uma nova regra criada agora.

O que aconteceu

O atleta foi submetido ao controle em 28 de janeiro de 2024, após uma partida entre Anglet Olympique e Union Cognac Saint-Jean-d’Angély. Segundo a decisão oficial francesa, a amostra apresentou 194 ng/mL de carboxi-THC. Ele não possuía autorização de uso terapêutico que justificasse a presença da substância.

Em sua defesa, afirmou ter consumido cannabis durante uma festa cerca de uma semana antes da partida, descrevendo poucas tragadas em um cigarro compartilhado. Os julgadores consideraram o relato pouco compatível com a concentração encontrada e apontaram inconsistências nas datas apresentadas.

A versão de uso isolado e distante da competição era central porque o THC é classificado como substância de abuso e permanece proibido em competição. Em certas condições, o código permite sanção reduzida quando o atleta demonstra que o consumo ocorreu fora do período competitivo e não teve relação com desempenho. A demonstração, porém, depende das provas do caso.

150 ng/mL ou 180 ng/mL?

Os dois números aparecem em materiais antidopagem e cumprem funções diferentes. Para delta-9-THC, o limite analítico na urina é de 150 ng/mL de carboxi-THC. Laboratórios consideram também a incerteza de medição, resultando em um limite de decisão de 180 ng/mL. No processo francês, o valor de 194 ng/mL ficou acima desse patamar.

Isso não funciona como teste de embriaguez capaz de indicar exatamente quando o consumo ocorreu ou se o atleta ainda sentia efeitos. Metabolismo, frequência de uso, dose, composição do produto e percentual de gordura alteram a eliminação. O limite reduz a chance de detectar exposições remotas, mas não oferece um relógio individual confiável.

THC continua proibido em competição

A Lista Proibida de 2026 da Agência Mundial Antidopagem mantém os canabinoides na classe S8 durante o período de competição. O CBD é a exceção nominal: não está proibido. THC, cannabis, haxixe e outros canabinoides naturais ou sintéticos continuam sujeitos às regras.

Legalidade e antidopagem são sistemas diferentes. Consumir cannabis legalmente ou por recomendação médica não elimina a responsabilidade do atleta. Quando existe necessidade terapêutica de substância proibida, o caminho adequado é avaliar previamente os requisitos de uma Autorização de Uso Terapêutico.

Por que “usei uma semana antes” não basta

A responsabilidade objetiva significa que o atleta responde pela substância encontrada na amostra, independentemente de intenção. A intenção, a origem do consumo e o momento podem influenciar a sanção, mas não apagam automaticamente a violação.

No caso francês, a Justiça considerou a concentração mais compatível com consumo próximo ao período competitivo e não acolheu a narrativa apresentada. A decisão não permite calcular uma janela segura para outros atletas. Ao contrário: mostra que promessas como “pare alguns dias antes” são arriscadas e não levam em conta diferenças individuais.

E o CBD?

CBD isolado é permitido, mas produtos comerciais podem conter THC ou outros canabinoides não declarados. Rótulos como “zero THC” não eliminam totalmente o risco. A qualidade varia entre fabricantes, e o atleta permanece responsável por um resultado adverso causado por contaminação.

Certificação independente por lote pode reduzir risco, sem oferecer garantia absoluta. Produtos de espectro completo e flores são especialmente incompatíveis com a ideia de exposição apenas ao CBD. Em esportes sujeitos a controle, a avaliação deve considerar formulação, laudo analítico, rastreabilidade e regulamento vigente.

O que atletas brasileiros devem aprender

Embora a decisão tenha ocorrido na França, a Lista da WADA serve de base para organizações antidopagem em diferentes países, inclusive no Brasil. O caso interessa a atletas profissionais e amadores vinculados a federações, não apenas ao rugby.

Quem utiliza cannabis medicinal deve informar o médico sobre a condição de atleta, verificar se haverá competição, entender a composição prescrita e discutir alternativas compatíveis com as regras. Interromper tratamento sem orientação também pode ser perigoso; o planejamento precisa ser clínico e antidopagem ao mesmo tempo.

Uma sanção que poderia parecer evitável

A distância entre o consumo alegado e a punição de dois anos torna o caso emblemático. Para o público, poucas tragadas em uma festa podem parecer desconectadas de uma partida. Para o sistema antidopagem, o dado central é a substância presente acima do limite e a capacidade de demonstrar, com evidências, como e quando ela entrou no organismo.

A lição não é moralizar o uso de cannabis. É reconhecer que regras esportivas continuam mais rígidas que muitas legislações civis. Sem informação, controle de produto e documentação, uma decisão fora do campo pode retirar um atleta dele por temporadas inteiras.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

Converse sobre seu caso
No Instagram

A conversa continua fora do feed.

Ciência, esporte e histórias reais para falar de cannabis sem tabu, sem promessa fácil e com o atleta no centro.

Seguir @atleta.cannabis