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Runner’s high até 230 km: estudo rastreia endocanabinoides na ultramaratona

Pesquisadores acompanharam corredores em uma maratona e em provas de 100, 160 e 230 km. A anandamida subiu, mas o estudo não prova que ela cause euforia — nem avalia o uso de cannabis.

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 08 de set. de 2026

Atualizado em 08/09/2026

Ultramaratonista atravessa ponto de pesquisa de campo ao amanhecer durante prova de longa distância

O que acontece com o sistema endocanabinoide quando uma corrida deixa de durar minutos e atravessa uma maratona inteira — ou chega a 230 quilômetros? Um estudo publicado em 1º de setembro de 2026 na revista BMC Medicine acompanhou atletas em condições reais de prova e encontrou mudanças persistentes em moléculas produzidas pelo próprio organismo.

O achado mais consistente envolveu a anandamida, também chamada AEA. Sua concentração no sangue aumentou progressivamente durante a maratona, permaneceu elevada após 45 minutos de recuperação e também subiu depois das ultramaratonas de 100, 160 e 230 km.

Isso chama atenção porque o chamado runner’s high costuma ser descrito como uma combinação variável de bem-estar, menor ansiedade, alteração da percepção de dor e sensação de fluxo. Mas os próprios autores fazem a ressalva central: observar endocanabinoides e mudanças de humor ao mesmo tempo não demonstra que uma coisa tenha causado a outra.

Dois estudos de campo, duas escalas de esforço

A pesquisa reuniu dois experimentos. No primeiro, 19 corredores experientes completaram uma maratona e, um ou dois meses depois, fizeram uma caminhada com duração equivalente na mesma rota. Houve coletas de sangue antes da largada, a cada 14 km, próximo do final e depois de 45 minutos de recuperação.

Esse desenho permitiu comparar a corrida com uma atividade mais leve realizada pelas mesmas pessoas durante o mesmo intervalo de tempo. A anandamida aumentou de maneira mais pronunciada na maratona. A caminhada também produziu mudanças, mas menores.

No segundo estudo, 36 ultramaratonistas completaram distâncias de 100, 160 ou 230 km na TorTour de Ruhr, na Alemanha. Foram coletadas amostras antes e depois das provas. Os participantes eram muito experientes: a média relatada foi de 57 maratonas e 41 ultramaratonas concluídas.

Depois de todas as distâncias, a AEA estava elevada em relação ao início. Outro endocanabinoide, o 2-AG, também apareceu aumentado após as ultramaratonas, embora seu comportamento durante a maratona tenha seguido um padrão diferente, mais evidente nas fases finais e no começo da recuperação.

O que mudou no humor e na dor

Os pesquisadores usaram escalas visuais para avaliar euforia, ansiedade e dor. Na comparação com a caminhada, a maratona foi associada a maior euforia e menor ansiedade. A dor aumentou depois de 28 km.

Nas ultramaratonas, a ansiedade relatada caiu após a chegada, enquanto a dor aumentou. A euforia, porém, não apresentou mudança estatisticamente significativa. Esse contraste é importante: mesmo com aumento dos endocanabinoides, não apareceu uma resposta emocional única e uniforme.

O runner’s high não ocorreu da mesma forma para todos. Os autores perguntaram aos corredores se haviam experimentado o fenômeno, mas não ofereceram uma definição formal. A resposta, portanto, dependia da interpretação pessoal de cada atleta.

Endocanabinoide não é cannabis consumida

A semelhança dos nomes costuma gerar confusão. Endocanabinoides são mensageiros produzidos pelo próprio corpo. Fitocanabinoides, como THC e CBD, são compostos encontrados na planta Cannabis sativa. Eles podem interagir com partes do mesmo sistema biológico, mas não são a mesma coisa.

Nenhum participante estava sendo tratado com cannabis para produzir o efeito observado. No estudo da maratona, o uso de drogas, incluindo cannabis nas quatro semanas anteriores ao teste, fazia parte dos critérios de exclusão. A pesquisa também não testou CBD, THC, óleo, dose, recuperação esportiva ou melhora de performance.

Portanto, o resultado não sustenta a ideia de que consumir cannabis reproduza o runner’s high, aumente endurance ou seja uma estratégia de desempenho. Fazer essa extrapolação iria além dos dados.

Por que a anandamida interessa à ciência do esporte

Durante décadas, a explicação popular para o runner’s high ficou quase sempre ligada às endorfinas. A pesquisa recente ampliou esse quadro ao investigar também o sistema endocanabinoide. Diferentes moléculas podem participar das respostas fisiológicas e afetivas ao exercício, e medir o sangue é uma forma indireta de observar parte desse processo.

Neste estudo, a AEA não subiu apenas no começo: continuou aumentando ao longo dos 42,2 km e ainda estava elevada depois da pausa de recuperação. Isso ajuda a preencher uma lacuna, porque grande parte dos trabalhos anteriores avaliava exercícios de menos de uma hora.

A presença de 2-AG elevado depois das ultras também sugere que a resposta não se resume a uma única molécula. Os padrões variaram conforme momento e tipo de prova, reforçando que o sistema é dinâmico.

Limitações que impedem respostas definitivas

O número de participantes foi pequeno: 19 no estudo da maratona e 36 nas ultramaratonas. A segunda parte não teve uma condição de controle equivalente e realizou apenas coletas antes e depois da prova, sem mostrar o comportamento das moléculas ao longo de cada ultra.

As condições de campo também variaram. Distâncias, horários, clima, alimentação, ritmo e tempo total de esforço não foram idênticos entre os ultramaratonistas. Os autores fizeram ajustes para mudanças no volume plasmático, mas uma medição no sangue não revela diretamente o que ocorria no cérebro.

Além disso, associação não é causalidade. O aumento de AEA e a redução da ansiedade ocorreram no mesmo contexto, mas o estudo não bloqueou receptores nem manipulou experimentalmente os endocanabinoides para provar que eles foram responsáveis pela experiência emocional.

O que o atleta pode levar deste estudo

A principal mensagem é científica, não prescritiva: o sistema endocanabinoide permanece ativo durante esforços muito prolongados e apresenta respostas que atravessam a chegada. O corpo de um ultramaratonista de 230 km ainda mostrou mudanças mensuráveis nessas moléculas.

Isso não cria um protocolo de treino, não define uma intensidade ideal e não transforma sofrimento extremo em recomendação de saúde. Uma ultramaratona impõe riscos e exige preparação, planejamento e avaliação compatíveis com o atleta e a prova.

Para quem acompanha cannabis medicinal, o estudo ajuda a separar conceitos. O sistema endocanabinoide faz parte da fisiologia humana; estudar sua resposta ao exercício não equivale a testar um produto de cannabis. Tratamento, segurança e participação esportiva continuam exigindo avaliação individual e, quando aplicável, atenção às regras antidopagem.

A descoberta mais interessante talvez esteja justamente na ausência de uma resposta simplista: a anandamida subiu durante quilômetros, mas a euforia não acompanhou todas as distâncias da mesma maneira. O runner’s high continua sendo uma experiência complexa — e agora a ciência tem um mapa mais longo para investigá-la.

O Atleta Cannabis traduz evidências para aproximar pacientes, atletas e profissionais qualificados. Fernando Paternostro é atleta de endurance, paciente de cannabis medicinal, empreendedor, comunicador e fundador do projeto. Ele não é médico, não prescreve e não transforma resultados de pesquisa em indicação individual.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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