A ultramaratonista que corre com cannabis: o que a ciência sabe sobre o novo "runner's high"
A americana Shelby Farrell une maconha e ultrarrunning há nove anos. Um estudo de 2023 e um especialista em canabinoides ajudam a separar experiência pessoal de evidência científica.

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
Publicado em 18 de ago. de 2026
Atualizado em 18/08/2026

Há nove anos, a ultramaratonista americana Shelby Farrell repete o mesmo ritual antes de largar: veste um par de meias coloridas, amarra o tênis e come uma gummy de THC cerca de 30 minutos antes do tiro de largada. Farrell, hoje com 33 anos, treina para provas de 50 km a mais de 480 km e diz que a cannabis potencializa o que chama de "estado de fluxo" durante a corrida.
Este conteúdo é jornalístico e educativo. Relata a experiência pessoal de uma atleta americana amplamente divulgada pela imprensa esportiva dos Estados Unidos — não é recomendação de uso, prescrição ou indicação de dose. Fernando Paternostro e o Atleta Cannabis não orientam produto, quantidade ou via de administração; qualquer decisão sobre cannabis e esporte deve passar por avaliação médica individual.
De uma meia maratona a 480 km de trilha
Farrell teve os primeiros contatos com cannabis ainda na adolescência, mas só uniu cannabis e corrida em 2015, numa meia maratona em Vermont. A prova trouxe, segundo ela, uma "sensação elevada" que a fez repetir a combinação em toda corrida desde então.
Hoje ela documenta o hábito nas redes sociais durante provas de ultrarresistência: já usou cannabis no Cocodona 250, na tentativa do Long Trail de Vermont e em pelo menos 15 ultras acima de 80 km. Em 2022, correu solo os quase 480 km do The Speed Project, entre a Santa Monica Pier e Las Vegas, e bateu o recorde feminino solo da prova, em 101 horas. Segundo relato da própria atleta, foram cerca de 100 mg de THC por dia ao longo dos quatro dias de prova, divididos entre tabletes, comestíveis e um creme tópico de THC aplicado em tornozelos e joelhos.
CBD, THC e mais de 100 outras moléculas
A cannabis contém mais de 100 compostos ativos conhecidos como canabinoides. Os dois mais estudados são o CBD (canabidiol), não psicoativo, e o THC (tetraidrocanabinol), responsável pelo efeito de euforia. Produtos à base de um, do outro ou dos dois já circulam no mercado esportivo internacional como supostos aliados contra inflamação e dor — sem aprovação da agência regulatória americana (FDA) para essa finalidade específica.
O único estudo controlado até agora
A evidência científica sobre cannabis e desempenho físico ainda é escassa. O estudo mais citado é de 2023, publicado na revista Sports Medicine, e acompanhou 42 corredores em esteira, comparando o mesmo exercício com e sem uso de produtos de cannabis — um grupo usou CBD, outro usou THC.
Os dois grupos relataram mais sintomas de "runner's high" e mais prazer no exercício sob efeito da cannabis. Já entre quem usou THC, correr pareceu mais difícil fisicamente, com aumento de frequência cardíaca e pressão arterial. A conclusão dos pesquisadores foi direta: cannabis pode melhorar o humor durante o exercício, mas não é um recurso ergogênico do ponto de vista físico.
Os limites, segundo quem estuda canabinoides
Jordan Tishler, médico e presidente da Association of Cannabinoid Specialists, avalia com mais cautela as formas de uso relatadas por atletas como Farrell. Sobre fumar, ele é direto: não é "uma abordagem particularmente boa", por causa de toxinas e partículas que prejudicam os pulmões.
Cremes tópicos, populares entre corredores como suposto anti-inflamatório local, recebem a crítica mais dura do especialista: "canabinoides não atravessam a pele", afirma — o efeito percebido viria sobretudo da massagem, não do princípio ativo, o que torna produtos caros um investimento questionável. Formas ingeridas, como comestíveis, teriam ação mais lenta e prolongada, com potencial para dores crônicas, mas sempre exigindo acompanhamento: a mesma via de metabolização hepática também está por trás de interações medicamentosas.
O detalhe que muda tudo para quem compete
Nada disso vale para quem está sujeito a controle antidopagem. A Agência Mundial Antidopagem (WADA) mantém canabinoides — com exceção do CBD isolado — na lista de substâncias proibidas em competição. Um atleta que reproduza o ritual de Farrell durante uma prova oficial testada corre risco real de sanção esportiva, independentemente do estado ou país onde a cannabis seja legal.
Para o público em geral, a mensagem de fundo é outra: relato pessoal amplamente divulgado pela imprensa não é sinônimo de evidência clínica. Um estudo com 42 pessoas em esteira é um começo, não uma conclusão.
O que fica para quem treina no Brasil
Fora das pistas americanas, o caso de Farrell serve como ponto de partida para uma pergunta mais concreta: existe, no seu contexto, uma indicação médica real para cannabis — para dor, sono, ansiedade ou recuperação — e ela é compatível com a modalidade que você pratica? Essa resposta não vem de rede social nem de reportagem internacional; vem de avaliação individual, com profissional habilitado, que considere histórico de saúde, medicamentos em uso e as regras da sua federação esportiva.
Fontes
- Sarah Gearhart, Outside/Run — "A New Kind of Runner's High". https://run.outsideonline.com/nutrition-and-health/a-runners-high/
- Sports Medicine (2023) — estudo sobre efeitos agudos de cannabis combinada a exercício. https://link.springer.com/article/10.1007/s40279-023-01980-4
- Harvard Health — CBD products are everywhere, but do they work? https://www.health.harvard.edu/newsletter_article/cbd-products-are-everywhere-but-do-they-work
- WADA — Prohibited List. https://www.wada-ama.org/en/prohibited-list
Aviso
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.Fontes e referências
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