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Talisson Glock: nove medalhas paralímpicas e uma conversa aberta sobre cannabis medicinal

O nadador brasileiro tornou pública sua experiência com canabinoides para sono e recuperação, sempre associada a acompanhamento profissional.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

21 de jul. de 2026

Nadador paralímpico brasileiro descansando à beira da piscina após o treino

Talisson Glock não é apenas um dos maiores nomes da natação paralímpica brasileira. Ele também se tornou uma das vozes mais visíveis do país ao falar sobre cannabis medicinal dentro do esporte de alto rendimento. Sua trajetória une nove medalhas paralímpicas, uma rotina extrema de treino e um relato pessoal sobre insônia, descanso e recuperação.

A história costuma aparecer resumida como a de um atleta que usa CBD para performar melhor. Esse enquadramento é impreciso. Glock descreve uma busca por qualidade do sono e recuperação, não uma substância capaz de aumentar diretamente velocidade ou força. E seu relato não substitui ensaios clínicos.

Uma carreira construída depois do acidente

Talisson nasceu em Joinville e, aos nove anos, foi atingido por um trem, perdendo o braço e a perna esquerdos. Poucos meses depois começou a frequentar um centro esportivo e passou a se dedicar à natação. Entrou na seleção brasileira em 2010.

Nos Jogos do Rio 2016 conquistou prata e bronze. Em Tóquio 2020 ganhou ouro nos 400 metros livre e dois bronzes. Em Paris 2024 acrescentou um ouro, uma prata e dois bronzes. A soma correta é de nove medalhas paralímpicas — e não cinco, número que ainda aparece em alguns compilados anteriores a Paris.

Por que ele buscou canabinoides

Em relato publicado durante a preparação para Tóquio, Glock disse que sofria com problemas recorrentes de insônia e procurou CBD após perceber que o acesso e o debate haviam avançado no Brasil. Ele associou o tratamento a melhora no descanso, na qualidade do sono e na recuperação entre sessões de treinamento.

Publicações posteriores mostram o atleta como defensor da medicina canabinoide e parceiro de empresas do setor. Esse vínculo comercial precisa ser exposto: conteúdo de marca pode documentar o relato do atleta, mas não é fonte independente para medir eficácia de um produto ou tecnologia.

Recuperação não é sinônimo de doping

No esporte, qualquer conversa sobre canabinoides encontra as regras antidopagem. O CBD isolado não integra a lista de substâncias proibidas da WADA. Outros canabinoides, inclusive THC, podem ser proibidos em competição. Produtos contaminados ou rotulados de forma imprecisa criam risco mesmo quando o objetivo declarado é medicinal.

Por isso, acompanhamento médico não elimina a necessidade de controle de qualidade, rastreabilidade e atenção ao regulamento aplicável. O atleta continua responsável pelo que aparece em sua amostra.

O que a ciência permite dizer

Sono e recuperação são áreas de grande interesse, mas os estudos com CBD em atletas ainda são limitados e usam doses, populações e medidas diferentes. A melhora percebida por Glock é válida como experiência individual; não estabelece que CBD trate insônia em todos os atletas nem que acelere recuperação muscular.

Revisões sobre canabinoides e insônia encontram sinais possíveis em alguns contextos, mas destacam heterogeneidade e risco de viés. Para atletas, faltam ensaios maiores que combinem medidas objetivas de sono, carga de treinamento, segurança e desempenho ao longo do tempo.

Representatividade também produz mudança

A importância de Glock vai além da substância. Um atleta paralímpico brasileiro, campeão em três edições dos Jogos, tornou pública uma decisão de saúde cercada por estigma. Isso abre espaço para que outros atletas conversem com profissionais em vez de esconder dúvidas ou recorrer apenas a indicações informais.

A mensagem responsável não é “se funcionou para um campeão, funcionará para você”. É outra: atletas também convivem com insônia, dor e recuperação incompleta; podem buscar cuidado individualizado; e merecem informação de qualidade para decidir sem medo e sem promessas exageradas.

O legado fora da piscina

Talisson Glock já construiu um legado esportivo mensurável em medalhas. Ao falar de cannabis medicinal, constrói outro, ainda em formação: o de ajudar o Brasil a discutir saúde do atleta sem confundir tratamento, performance e doping.

Sua experiência merece ser ouvida exatamente como é — um relato acompanhado, relevante e inspirador, mas não uma prescrição coletiva. Essa distinção fortalece, em vez de enfraquecer, a conversa.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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