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THC e tempo de reação: atletas ficaram 20% mais lentos em estudo

Após 12 meses sem THC, 18 jogadores de futebol americano melhoraram em testes de decisão e atenção. O desenho do estudo, porém, não prova causa e efeito.

FP
Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

Publicado em 22 de ago. de 2026

Atualizado em 22/08/2026

Atleta realiza teste de reação com luzes em centro de treinamento

Velocidade no esporte não é apenas correr mais rápido. Em modalidades nas quais uma decisão precisa acontecer em frações de segundo, perceber um estímulo, filtrar distrações e responder no momento certo também faz parte do desempenho. Um estudo publicado em 2 de junho de 2026 acompanhou jogadores de futebol americano universitário e encontrou uma diferença relevante nessa engrenagem: durante o período de uso crônico de THC, o tempo de reação foi aproximadamente 20% mais lento do que após 12 meses de abstinência verificada.

O resultado merece atenção, mas não autoriza uma conclusão simples como “THC deixa todo atleta 20% mais lento”. Foram apenas 18 homens, todos jogadores de futebol americano da primeira divisão universitária dos Estados Unidos. Não houve grupo-controle pareado, randomização nem medição direta do desempenho em campo.

O que os pesquisadores fizeram

O trabalho começou com 22 atletas que testaram positivo para THC e relataram consumo diário ou quase diário. Dezoito mantiveram abstinência verificada por 12 meses e completaram duas avaliações: uma no início e outra cerca de 363 dias depois.

Os participantes fizeram uma bateria computadorizada voltada à cognição no futebol americano. Ela mede processos como velocidade de percepção, controle de impulsos, capacidade de ignorar distrações, rastreamento de vários objetos e tomada de decisão sob pressão. Os testes foram realizados em ambiente controlado, com equipamentos capazes de registrar respostas em milissegundos.

O que significa a diferença de 20%

Na primeira avaliação, associada ao período de uso crônico, os atletas apresentaram reação aproximadamente 20% mais lenta em comparação com o próprio resultado depois da abstinência. A diferença equivaleu a cerca de 80 a 100 milissegundos na execução das decisões.

Também houve melhora estatisticamente significativa, após correção para comparações múltiplas, em áreas como complexidade da decisão, controle de distrações, controle de impulsos, rastreamento de objetos, detecção rápida de alvos, improvisação e no resultado cognitivo global. Parte dessas mudanças permaneceu mesmo quando os autores ajustaram a análise pela velocidade geral de reação.

Isso mostra uma associação dentro do mesmo grupo: os resultados foram melhores depois de um ano sem THC. Não mostra que cada milissegundo foi causado exclusivamente pela substância nem que a diferença necessariamente se converteu em mais acertos, menos lesões ou melhor desempenho esportivo real.

Por que o estudo não fecha a questão

Os próprios autores apontam limitações importantes. O projeto nasceu de uma avaliação aplicada dentro de um programa universitário, e não de um ensaio clínico planejado para testar causalidade. Informações como dose, potência, frequência exata, diferentes formas de consumo e uso de cafeína ou nicotina não foram padronizadas.

Além disso, um ano traz maturação, treinamento, familiaridade com o teste e outras mudanças. Os pesquisadores compararam o padrão com uma amostra independente de atletas, mas isso não substitui um grupo-controle acompanhado nas mesmas condições. A amostra pequena, masculina e de uma única modalidade também impede generalizar o achado para mulheres, atletas recreativos ou outros esportes.

Uso medicinal e uso crônico não são a mesma pergunta

O estudo investigou jogadores que relataram fumar cannabis diariamente ou quase diariamente e haviam testado positivo para THC. Ele não avaliou um protocolo médico individualizado, não comparou formulações, não isolou CBD e não testou produtos com diferentes teores de THC.

Por isso, o resultado não deve ser usado para concluir que todo produto de cannabis medicinal produz o mesmo efeito. Também não serve para indicar interrupção, troca ou ajuste de tratamento. Quem utiliza cannabis medicinal precisa discutir com o profissional que acompanha o caso fatores como composição do produto, efeitos percebidos, rotina de treino, direção, tarefas de risco e calendário esportivo.

O alerta prático para quem treina

A principal contribuição do estudo é recolocar atenção e tomada de decisão na conversa sobre cannabis e esporte. Sentir-se bem não garante que reação, coordenação ou controle de distrações estejam intactos. Isso é especialmente relevante em ciclismo no trânsito, esportes de combate, modalidades com velocidade, máquinas ou decisões rápidas.

Para atletas sujeitos ao controle antidopagem, existe ainda uma camada separada: THC e outros canabinoides, com exceção do CBD, permanecem proibidos em competição pelas regras da WADA. Prescrição não elimina automaticamente a responsabilidade do atleta, e produto rotulado como CBD pode conter outros canabinoides.

Fernando Paternostro não é médico nem prescritor. Como atleta, paciente e fundador do Atleta Cannabis, seu papel é ampliar o acesso a informação responsável e conectar pacientes a profissionais habilitados. Se você usa cannabis medicinal e quer alinhar o tratamento à rotina esportiva, converse com o profissional que acompanha seu caso.

Fontes

Frontiers in Sports and Active Living. Cognitive performance recovery following marijuana cessation in NCAA division I athletes. Publicado em 2 de junho de 2026. https://www.frontiersin.org/journals/sports-and-active-living/articles/10.3389/fspor.2026.1821656/full

PubMed. Cognitive performance recovery following marijuana cessation in NCAA division I athletes. PMID 42311485. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42311485/

World Anti-Doping Agency. 2026 Prohibited List. https://www.wada-ama.org/en/resources/world-anti-doping-program/2026-prohibited-list

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

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