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Ultramaratonistas e canabinoides: o que revela uma pesquisa com 609 corredores

Levantamento de 2018 encontrou uso autorrelatado de substâncias proibidas por 8,4% da amostra, com canabinoides entre as categorias mais citadas.

FP

Fernando Paternostro

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis

21 de jul. de 2026

Ultramaratonistas reabastecendo durante uma prova em trilha de montanha

Ultramaratonas são associadas a resistência, autonomia e capacidade de suportar desconforto por horas. Uma pesquisa com 609 corredores mostrou que esse universo também convive com outra realidade: 8,4% dos participantes disseram ter usado substâncias consideradas proibidas durante treino ou competição, e canabinoides estavam entre as categorias mais relatadas.

O estudo foi publicado em 2018 na Wilderness & Environmental Medicine. Não é uma notícia nova nem permite afirmar que 8,4% dos ultramaratonistas usam cannabis. O percentual reúne diferentes substâncias e deriva de respostas voluntárias. Ainda assim, oferece uma janela rara para práticas pouco discutidas no endurance.

O que os pesquisadores perguntaram

Os autores aplicaram um questionário a corredores identificados por eventos de ultradistância e pela plataforma UltraSignup. A pesquisa reuniu dados demográficos, perguntas sobre substâncias para melhora de desempenho e uma escala validada de atitudes em relação a doping.

Entre 609 respondentes, 8,4% relataram uso de substâncias proibidas em competição ou treinamento. Canabinoides, narcóticos e estimulantes foram as categorias mais frequentes. O estudo não encontrou diferenças claras por sexo, idade, país, volume de treino ou maior distância completada.

O número que não deve ser distorcido

Dizer que “8,4% usam canabinoides” é incorreto. O artigo informa que 8,4% relataram alguma substância proibida; canabinoides foram uma das categorias mais citadas, junto com narcóticos e estimulantes. O resumo público não fornece uma prevalência isolada de cannabis suficiente para transformar as duas informações em uma só.

Essa precisão importa porque uma manchete inflada viaja mais rápido que a correção. O dado forte já existe sem exagero: em uma amostra relevante de ultracorredores, houve uso declarado de substâncias proibidas e os canabinoides apareceram entre as escolhas.

Por que corredores recorrem a essas substâncias

A pesquisa mediu uso e atitudes, não diagnosticou motivos clínicos de cada participante. Em ultradistância, porém, dor, náusea, ansiedade, sono interrompido e recuperação fazem parte do contexto. Isso pode estimular automedicação e experimentação, especialmente em uma cultura que valoriza autossuficiência.

Canabinoides também ocupam uma zona confusa. CBD isolado é permitido pela WADA, enquanto outros canabinoides são proibidos em competição. Um produto rotulado como CBD pode conter THC não declarado. Além disso, reduzir percepção de dor não significa aumentar desempenho nem tornar seguro continuar correndo com uma lesão.

O problema da orientação informal

Relatos de prova, fóruns e grupos de corredores frequentemente substituem aconselhamento profissional. A pessoa aprende dose, momento de uso e produto com outro atleta, sem considerar interações, sedação, tomada de decisão, equilíbrio, frequência cardíaca ou regras antidopagem.

Em provas longas, qualquer efeito sobre atenção e coordenação pode ganhar importância. Terreno técnico, privação de sono, calor e desidratação já reduzem margem de segurança. Adicionar uma substância psicoativa ou de composição incerta torna a avaliação ainda mais complexa.

Limitações do levantamento

A amostra foi autoselecionada e dependeu de sinceridade em um tema sensível. Pessoas que usam substâncias podem ter evitado responder ou, ao contrário, ter maior interesse no questionário. Não houve teste biológico para confirmar exposição.

O termo canabinoides também agrupa produtos diferentes. A pesquisa ocorreu antes de mudanças importantes na popularidade do CBD e em legislações estaduais, o que limita comparações diretas com o cenário atual.

O que permanece atual

O estudo não entrega uma estimativa definitiva, mas revela uma questão que continua aberta: a cultura das ultramaratonas pode normalizar estratégias de automanejo sem que riscos, evidência e regras sejam discutidos com a mesma intensidade.

A resposta responsável não é vigiar todos os corredores nem romantizar o uso. É oferecer educação específica para endurance, distinguir CBD de outros canabinoides, explicar responsabilidade objetiva e criar espaço para atletas conversarem sobre dor e recuperação antes que a internet vire o único treinador disponível.

Aviso

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.

Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.

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