Canabidiol engorda ou emagrece? Novo estudo mostra por que a resposta não é simples
Um ensaio de 2026 observou maior ingestão de energia após uma dose de CBD, enquanto dados clínicos também registram redução de apetite e peso. Nenhum dos dois cenários autoriza promessa sobre a balança.

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
Publicado em 30 de ago. de 2026
Atualizado em 30/08/2026

Canabidiol engorda ou emagrece? A pergunta parece pedir uma resposta de uma palavra, mas a evidência disponível não permite esse atalho. Um ensaio randomizado publicado em 2026 observou que adultos saudáveis comeram mais em uma refeição após receber CBD. Em outro contexto, documentos regulatórios de um medicamento à base de canabidiol registram diminuição do apetite e do peso entre possíveis efeitos adversos.
Esses resultados não se anulam. Eles vêm de populações, produtos, durações e objetivos muito diferentes. A conclusão responsável é menos chamativa, mas mais útil: canabidiol não deve ser vendido como estratégia para emagrecer nem como produto que inevitavelmente engorda.
O que o novo estudo encontrou
Pesquisadores do National Centre for Sport and Exercise Medicine, no Reino Unido, avaliaram 15 adultos saudáveis em um estudo duplo-cego, randomizado e cruzado. Em momentos diferentes, cada participante recebeu uma dose única de 298 mg de CBD isolado ou placebo.
Após um café da manhã padronizado, os participantes tiveram acesso livre ao almoço. Na condição com CBD, a ingestão média foi 193 quilocalorias maior do que com placebo. Ao mesmo tempo, eles não relataram maior sensação subjetiva de fome, e os pesquisadores não encontraram diferenças entre as condições em gasto energético, glicose, insulina, oxidação de gordura ou carboidrato.
O resultado fala sobre o que aconteceu em uma refeição depois de uma dose específica. Ele não demonstra ganho de peso, não mede uso prolongado e não permite concluir que qualquer formulação de canabidiol aumentará o apetite. A amostra também foi pequena: 15 pessoas, das quais quatro eram mulheres.
Comer mais em um almoço não significa engordar
Peso corporal resulta de uma combinação de ingestão, gasto energético, composição da dieta, atividade física, condições clínicas, medicamentos e tempo. Uma diferença observada em uma única refeição não equivale a aumento sustentado de peso.
O próprio estudo mostrou uma aparente contradição: os participantes comeram mais após o CBD, mas apresentaram concentrações menores de grelina em determinados momentos e não relataram mudança subjetiva de apetite. Isso reforça que um marcador isolado ou uma refeição não explicam toda a resposta humana.
Por que alguns dados apontam para menos apetite e peso
A Agência Europeia de Medicamentos informa que diminuição do apetite está entre os efeitos adversos mais comuns do Epidyolex, medicamento com canabidiol indicado para síndromes epilépticas específicas. A informação do produto também registra que o canabidiol pode causar perda de peso ou menor ganho de peso nesses pacientes.
Esse dado não pode ser transferido automaticamente para adultos saudáveis ou para produtos usados em outras condições. Os ensaios do medicamento envolveram pacientes com epilepsias graves, tratamentos concomitantes e acompanhamento clínico. Dose, formulação, idade, doença de base e outros medicamentos influenciam tolerabilidade e resposta.
Uma revisão sistemática publicada em 2022 reuniu 11 ensaios clínicos que relataram apetite ou peso. A maioria apontou redução de apetite ou peso, mas alguns não encontraram mudança e um registrou aumento do apetite. Os próprios autores destacaram preocupações com risco de viés e pediram mais pesquisa. O ensaio de 2026 acrescenta informação nova, mas não resolve sozinho essa incerteza.
CBD não é tratamento para emagrecimento
Nenhuma dessas fontes autoriza anunciar canabidiol como emagrecedor. O ensaio recente não avaliou perda de peso, e os efeitos adversos observados com um medicamento para epilepsia não constituem indicação para emagrecer. Transformar perda de apetite em promessa comercial seria confundir reação adversa, contexto clínico e objetivo terapêutico.
Também não faz sentido concluir que o CBD engorda. O estudo de 2026 mediu ingestão aguda de energia, não alteração sustentada do peso corporal. Para responder se um tratamento está mudando peso ou apetite, é preciso observar tendência ao longo do tempo e considerar alimentação, treino, sono, sintomas, outras medicações e a condição tratada.
O que vale acompanhar no tratamento
Se houver mudança relevante de fome, padrão alimentar ou peso durante um tratamento, o caminho responsável é registrar quando começou, sua intensidade, a formulação utilizada e outras alterações simultâneas. Essas informações ajudam o profissional de saúde a avaliar o contexto, sem transformar experiência individual em regra universal.
Perda de peso involuntária, redução persistente do apetite, vômitos, diarreia ou aumento de peso sem explicação merecem conversa com o profissional que acompanha o caso. Não ajuste nem interrompa o tratamento por conta própria com base em uma manchete ou em um número isolado da balança.
Fernando Paternostro atua como atleta, paciente, comunicador e conector entre pacientes e médicos prescritores. Ele não realiza diagnóstico, prescrição ou orientação clínica individualizada.
Fontes
Johnson DA et al. A single dose of cannabidiol increases ad libitum energy intake in healthy adults but does not affect postprandial glucose or lipid metabolism. Appetite. 2026. DOI: 10.1016/j.appet.2026.108531. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41825697/
European Medicines Agency. Epidyolex — informações regulatórias e riscos associados. Página consultada em agosto de 2026. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/epidyolex
Pinto JS, Martel F. Effects of Cannabidiol on Appetite and Body Weight: A Systematic Review. Clinical Drug Investigation. 2022. DOI: 10.1007/s40261-022-01205-y. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36180814/
Aviso
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.Fontes e referências
Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.
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