Do lacrosse a uma empresa de cannabis de US$ 190 milhões: o jogo de David Morrow
Ex-atleta de elite e fundador da Warrior Sports levou para a cannabis a lógica de desempenho, fabricação e escala — em um dos mercados mais competitivos dos EUA.

Fernando Paternostro
Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
21 de jul. de 2026

Antes de comandar uma operação de cannabis com 40 lojas e 1.400 funcionários, David Morrow foi um dos melhores defensores da história do lacrosse universitário, fundou uma fabricante de equipamentos esportivos no dormitório de Princeton e vendeu a empresa para a New Balance. Agora, aos 55 anos, ele tenta repetir no mercado da cannabis a mesma jogada que transformou uma inovação de nicho em uma marca nacional.
A história chama atenção pelo número que abre a reportagem da Forbes: a Lume teria faturado US$ 190 milhões em 2025. Mas o que torna o caso realmente interessante não é apenas o tamanho da receita. É a tentativa de converter um setor fragmentado, regulado estado por estado e pressionado por preços baixos em uma operação industrial capaz de entregar escala, padronização e marca.
Quem é David Morrow
Morrow chegou a Princeton vindo de Michigan, longe dos centros tradicionais do lacrosse norte-americano. Tornou-se três vezes All-American, foi eleito duas vezes o melhor defensor do país e recebeu o prêmio de jogador nacional do ano em 1993. Também integrou seleções dos Estados Unidos campeãs mundiais em 1994 e 1998. Em 2018, entrou para o Hall da Fama do lacrosse dos EUA.
Essa trajetória não é detalhe decorativo. Competição, leitura de adversário, tolerância a pressão e repetição até a execução se tornar consistente aparecem novamente na forma como Morrow descreve os negócios. A linguagem é agressiva e tipicamente esportiva: ele vê a expansão como um jogo de longo prazo em um mercado onde sobreviver exige eficiência.
A primeira empresa nasceu no dormitório
Em 1992, ainda estudante e atleta, Morrow fundou a Warrior Sports. A ideia inicial era melhorar os tacos de lacrosse com hastes de titânio, mais leves e resistentes que muitas opções disponíveis na época. A empresa cresceu com o próprio esporte, expandiu-se para luvas, equipamentos de hóquei e futebol e alcançou vendas anuais de cerca de US$ 20 milhões, segundo a Forbes.
A New Balance adquiriu a Warrior Lacrosse em 2004. A própria New Balance registra a entrada da Warrior em seu grupo naquele ano, e Morrow permaneceu na operação por décadas. Segundo ele, a experiência de ampliar fabricação, distribuição e portfólio foi a escola que depois permitiu levar a Lume de zero para perto de US$ 200 milhões em receita.
A ponte entre esporte e cannabis, portanto, não foi apenas reputacional. Ela veio do chão de fábrica: desenho de produto, controle de qualidade, construção de marca e capacidade de produzir a mesma experiência repetidamente.
Como nasceu a Lume
A origem do negócio remonta a 2018, quando os irmãos Robert e Donald Barnes, proprietários da rede de pneus Belle Tire, desenvolviam uma pequena operação de cannabis medicinal em Michigan. Com a legalização do uso adulto no estado, Robert Barnes convidou Morrow para assumir um papel central no projeto.
Morrow deixou a New Balance, levou consigo o executivo Doug Hellyar e reposicionou a empresa com o nome Lume. A primeira loja abriu em Kalamazoo no final de 2019. Em poucos anos, o grupo passou de um dispensário e uma área de cultivo para uma cadeia verticalizada com 40 lojas, 1.400 funcionários e uma grande instalação de cultivo e processamento em Evart.
A Forbes relata que a empresa captou US$ 250 milhões e investiu US$ 45 milhões na fábrica. A unidade ocupa aproximadamente 20.900 metros quadrados e reúne 20 salas de cultivo, além de áreas de secagem, cura, processamento e embalagem.
A fábrica onde biossegurança é estratégia
O elemento mais visual da operação é também um dos mais estratégicos. Antes de entrar nas salas de cultivo, visitantes vestem roupas de proteção e passam por uma câmara de ar. O objetivo é reduzir a entrada de pragas, fungos e outros contaminantes capazes de comprometer uma colheita inteira.
A instalação mantém cerca de 26 mil plantas em diferentes estágios, segundo a reportagem. A produção abastece flores, pré-enrolados, comestíveis, vaporizadores e bebidas com THC vendidos dentro de Michigan. A empresa afirma realizar 114 colheitas anuais e operar sem ter perdido uma safra por falhas de biossegurança.
Mais do que uma imagem futurista, esse desenho traduz a tese de Morrow: cannabis legal precisa ser tratada como manufatura de bens de consumo. Isso significa controlar variáveis, documentar processos, repetir lotes e reduzir o custo por unidade sem perder consistência.
O que significam os US$ 190 milhões
Segundo a Forbes, a Lume registrou receita de US$ 190 milhões em 2025 e margem de 42%. A reportagem também informa custo médio de aproximadamente US$ 6 por unidade e preço médio de venda de US$ 11.
Esses dados precisam ser lidos com precisão. A Lume é uma companhia privada, a matéria não apresenta demonstrações financeiras auditadas e não esclarece se os 42% representam margem bruta, operacional ou outra métrica. Portanto, os números são relevantes como relato empresarial atribuído à Forbes e à companhia — não como balanço público independentemente verificado.
Ainda assim, a escala impressiona porque Michigan combina alto volume com preços extremamente comprimidos. Em julho de 2025, a agência reguladora estadual registrou preço médio de US$ 62,30 por onça de flores para uso adulto. No mesmo mês, as vendas desse mercado chegaram a US$ 274 milhões, enquanto o segmento medicinal respondeu por menos de 0,2% do total.
A partir de janeiro de 2026, Michigan também passou a aplicar um imposto de 24% sobre determinadas vendas e transferências atacadistas de cannabis para uso adulto, além do imposto de 10% já cobrado no varejo. Para empresas verticalizadas, que cultivam, processam e vendem, a nova regra adiciona pressão relevante à estrutura de custos.
Por que a Lume ficou em um único estado
Enquanto grandes grupos norte-americanos correram para operar em vários estados, a Lume concentrou capital e execução em Michigan. A escolha tem relação direta com a legislação federal: cannabis produzida legalmente em um estado ainda não pode simplesmente cruzar fronteiras estaduais como um produto comum.
Na prática, cada expansão exige replicar licenças, cultivo, processamento, distribuição e lojas dentro de uma nova jurisdição. Isso consome capital e dificulta economias de escala. Morrow prefere esperar uma eventual mudança federal que permita comércio interestadual e, então, replicar a fábrica onde energia e água forem competitivas.
A estratégia é ambiciosa, mas não inevitável. Mudanças federais podem demorar, regras estaduais podem proteger operadores locais e consumidores nem sempre respondem positivamente à consolidação. Os comentários na publicação da Forbes mostram esse conflito: parte do público admira a eficiência; outra parte teme que grandes empresas enfraqueçam lojas comunitárias e produtores independentes.
O que o esporte realmente ensinou ao negócio
É tentador resumir a história como “atleta vence também no empreendedorismo”. A conexão mais útil é mais concreta. Morrow aprendeu a identificar um equipamento ruim, redesenhá-lo, testar em competição e transformá-lo em categoria de produto. Depois aprendeu a ampliar fabricação e distribuição dentro da New Balance. Na Lume, aplica a mesma sequência a um mercado que ainda busca padrões industriais.
Cinco princípios aparecem nessa passagem:
1. Resolver um problema real antes de construir uma narrativa. Na Warrior, foi a limitação do equipamento; na Lume, é a inconsistência de produto e processo.
2. Tratar repetição como vantagem competitiva. No esporte e na indústria, um resultado isolado vale menos do que a capacidade de reproduzi-lo.
3. Crescer sem ignorar o custo por unidade. Receita chama atenção, mas eficiência decide quem atravessa guerras de preço.
4. Construir para a regra que pode existir amanhã. A fábrica foi pensada para um mercado mais padronizado e possivelmente interestadual.
5. Entender que marca não substitui operação. A experiência do consumidor depende de cultivo, controle, logística e varejo funcionando juntos.
Escala é sinônimo de avanço?
Não necessariamente. Uma indústria mais profissional pode elevar controle de qualidade, rastreabilidade e previsibilidade. Ao mesmo tempo, concentração excessiva pode reduzir diversidade, pressionar pequenos produtores e transformar uma planta complexa em portfólios guiados apenas por volume e margem.
O caso da Lume interessa justamente porque expõe essa tensão. De um lado, há uma empresa capaz de investir dezenas de milhões em biossegurança e padronização. Do outro, há um mercado que nasceu de cultivadores, pacientes, ativistas e negócios locais — grupos que nem sempre conseguem competir com capital institucional.
A pergunta mais importante não é se a cannabis será industrializada. Isso já está acontecendo. A pergunta é qual modelo conseguirá combinar escala, qualidade, responsabilidade, diversidade e acesso sem apagar as comunidades que abriram caminho para a legalização.
Muito além de uma “fábrica de maconha”
O impacto viral da imagem de um ex-atleta cercado por milhares de plantas é compreensível. Mas a história completa é maior: mostra a cannabis entrando em uma fase na qual engenharia, controle sanitário, tributação, logística, varejo e estratégia de marca pesam tanto quanto o cultivo.
David Morrow levou a mentalidade competitiva do lacrosse para esse novo campo. Se a Lume conseguirá transformar domínio regional em presença nacional dependerá menos de uma frase de efeito e mais de legislação federal, disciplina financeira e capacidade de conquistar consumidores fora de Michigan.
Por enquanto, o caso deixa uma lição clara: o próximo capítulo da cannabis não será escrito apenas por quem conhece a planta, nem apenas por quem conhece capital. Ele será disputado por quem conseguir unir produto, processo, confiança e cultura.
Fontes consultadas
Forbes Brasil e Forbes: perfil de David Morrow e dados operacionais atribuídos à Lume, julho de 2026.
Princeton University Athletics: trajetória esportiva, títulos e entrada de Morrow no Hall da Fama.
New Balance: histórico corporativo e aquisição da Warrior Lacrosse em 2004.
Michigan Cannabis Regulatory Agency: preços, vendas e participação do mercado medicinal em 2025.
Michigan Department of Treasury: regras do imposto atacadista de 24% vigente desde janeiro de 2026.
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Fontes e referências
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