Por que eu criei o Atleta Cannabis: a jornada de um Ironman contra o estigma
Uma história sobre medo, silêncio e a decisão de falar abertamente sobre cannabis medicinal no esporte.

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
Publicado em 10 de jul. de 2026
Atualizado em 21/07/2026

Cruzei a linha de chegada do meu primeiro Ironman e recebi a medalha, os parabéns, as fotos. Todo mundo via um triatleta cruzando uma das linhas de chegada mais desafiadoras do esporte. Ninguém via a outra parte da história: que eu tinha chegado ali sendo, também, paciente de cannabis medicinal, acompanhado por um médico havia meses. Essa parte eu guardava — como se fosse possível separar o atleta que cruzou a linha do paciente que ele também era.
Eu também tinha preconceito
Antes de qualquer coisa, preciso ser honesto sobre um ponto: eu não vim do universo da cannabis. Não cresci ao redor do tema, não tinha familiaridade nem simpatia automática por ele. Pelo contrário — carregava exatamente o mesmo preconceito que via nos outros atletas ao meu redor. Cannabis, pra mim, ainda vinha carregada de estereótipos antigos: algo distante da disciplina, da rotina e dos valores que eu associava ao esporte.
Isso começou a mudar quando minha própria jornada de saúde me colocou diante de uma conversa que eu nunca imaginei ter. Estudei. Conversei com mais de um médico. Questionei, resisti, antes de aceitar. O preconceito que eu tinha não caiu numa conversa só — caiu aos poucos, à medida que informação foi substituindo o estigma que eu mesmo carregava sem perceber.
Uma conversa médica, não um atalho
Minha chegada à cannabis medicinal não veio de uma busca por atalhos no esporte. Veio através de uma conversa médica sobre saúde. Um médico avaliou meu histórico, minhas queixas, minha rotina de treino — e, entre outras orientações, incluiu a cannabis medicinal no meu tratamento, com acompanhamento e ajustes constantes, como qualquer conduta médica séria exige.
Não existiu, em nenhum momento, a ideia de usar cannabis para treinar mais ou performar melhor. Existiu um médico tratando um paciente que também é atleta.
Atleta, paciente, e as regras que eu levo a sério
Sou triatleta amador, já completei provas Ironman, treino e compito dentro de um universo que trata regras antidoping com extremo rigor — inclusive as da WADA, que trata CBD e THC de formas diferentes, e que eu respeito em cada decisão que envolve minha saúde e minha rotina de treino.
É exatamente por conhecer essas regras de perto que preciso deixar uma coisa muito clara: cannabis não treinou por mim. Não foi atalho, não é promessa de performance, e nunca foi apresentada — nem pelo meu médico, nem por mim — como parte de um plano para nadar, pedalar ou correr mais rápido. Foi, e continua sendo, parte de um tratamento de saúde acompanhado. Nada além disso.
O que fica é uma pergunta que carreguei por um bom tempo antes de decidir fazer alguma coisa a respeito: por que algo que existe dentro da medicina ainda gera tanto silêncio no esporte?
O silêncio que eu carregava
Eu falava sobre treino, sobre prova, sobre recuperação, com total liberdade. Mas sobre essa parte específica do meu cuidado com a saúde, eu calava. Nos grupos de corrida, nas rodas de triatletas, no vestiário: sempre a mesma edição de mim mesmo, com uma parte cortada.
Fui percebendo, aos poucos, que eu não era o único. Outros atletas — amadores, alguns até competitivos — comentavam comigo em particular, quase sussurrando, que também eram pacientes, ou que tinham dúvidas sobre o assunto e não sabiam com quem conversar. Todo mundo escondendo a mesma coisa, na mesma comunidade que se orgulha de falar abertamente sobre superação.
A decisão de falar
Decidi contar minha história pela primeira vez pra um círculo pequeno. Depois, mais gente. Cada vez que eu falava abertamente sobre ser paciente de cannabis medicinal e ter um médico acompanhando esse cuidado, alguém no grupo — sempre alguém — vinha conversar comigo depois, em particular, com uma dúvida real.
Não era sobre cannabis "funcionar" ou não. Era sobre não ter com quem conversar sobre isso dentro do próprio universo esportivo. Faltava um espaço onde a pergunta pudesse ser feita sem julgamento e sem vender nada — só informação séria, história real, e o encaminhamento certo, que é sempre um médico.
Por que o Atleta Cannabis existe
Foi por isso que criei o Atleta Cannabis. Não para convencer ninguém a virar paciente. Quebrar o estigma não significa convencer todo mundo a usar cannabis — significa criar espaço para uma conversa baseada em evidência.
Este não é um consultório. Não substitui consulta médica, não recomenda produto nem dose, e não promete cura ou resultado esportivo de nenhum tipo. O que existe aqui é ciência traduzida com rigor, histórias reais — incluindo a minha — e um lembrete constante de que qualquer decisão sobre cannabis medicinal passa por acompanhamento médico, sempre.
Se você é atleta e essa história faz algum sentido pra você — seja porque já é paciente e nunca falou sobre isso, seja porque tem dúvidas e não sabe por onde começar — o próximo passo não é uma resposta rápida aqui. É uma conversa. Comigo, com quem já passou por isso, ou diretamente com um médico prescritor.
O estigma se mantém no silêncio. Este site é a minha forma de não ficar mais calado.
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Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.
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