Fernando Paternostro: por que a conversa sobre cannabis no esporte precisa começar pela evidência
Em entrevista à Sports Cannabis, o fundador do Atleta Cannabis fala de endurance, recuperação, antidoping e do limite entre experiência pessoal e ciência.

Triatleta Ironman, paciente de cannabis medicinal e fundador do Atleta Cannabis
Publicado em 25 de ago. de 2026
Atualizado em 25/08/2026

A conversa sobre cannabis no esporte ainda costuma nascer de extremos: de um lado, promessas fáceis; de outro, estigmas antigos. Em entrevista à Sports Cannabis, repercutida pelo Cannabis Monitor, Fernando Paternostro propõe outro ponto de partida: evidência, contexto e responsabilidade.
Atleta de endurance e fundador do Atleta Cannabis, Fernando reúne a vivência de quem treina e compete com o trabalho de comunicação que busca tornar a informação científica mais acessível a atletas, pacientes e profissionais de saúde. Para ele, a missão não é convencer ninguém a usar cannabis, mas qualificar uma discussão que durante muito tempo foi dominada por simplificações.
Disciplina antes de atalhos
Na entrevista, Fernando relaciona sua trajetória no triathlon a uma ideia simples: performance é construída pela consistência. Treino, sono, alimentação, recuperação e ajustes ao longo do tempo fazem parte do mesmo processo — e nenhuma ferramenta isolada substitui esse fundamento.
Essa perspectiva também organiza a forma como ele fala de canabinoides. O interesse inicial, conta, não veio de uma busca por ganho imediato de desempenho, mas de perguntas sobre recuperação, sono, percepção de dor muscular e ansiedade em blocos de treinamento exigentes. Perguntas legítimas, porém diferentes de respostas prontas.
Vivência gera hipótese; ciência testa
O ponto central da conversa é a separação entre relato individual e conclusão científica. Uma mudança percebida por uma pessoa pode abrir uma hipótese de investigação, mas não prova eficácia, segurança ou aplicabilidade para todos.
Por isso, o trabalho editorial do Atleta Cannabis parte de uma regra clara: experiências reais merecem ser ouvidas, mas precisam ser confrontadas com literatura científica, desenho dos estudos, limitações e orientação de profissionais habilitados. Essa distinção é especialmente importante em temas de saúde e no esporte competitivo, onde contexto e risco fazem diferença.
Recuperação não é sinônimo de promessa
Na prática esportiva, recuperação é muito mais ampla do que um único recurso. Ela envolve carga de treino, descanso, nutrição, acompanhamento profissional e a resposta individual de cada atleta. Fernando usa a expressão “ergogênico indireto” para abrir uma discussão: quando uma intervenção é estudada em sono, ansiedade ou recuperação, qualquer possível impacto no treinamento seria indireto — não uma autorização para prometer melhora de performance.
A evidência sobre canabinoides no esporte continua em evolução. Isso pede cautela com generalizações, produtos e doses. Pessoas que consideram tratamento devem conversar com médico qualificado; atletas submetidos a controle antidoping precisam ainda verificar as regras vigentes e o risco de contaminação de produtos antes de qualquer decisão.
Menos ideologia, mais critério
Quebrar estigmas, na visão de Fernando, não significa normalizar o uso por pressão social. Significa permitir uma conversa honesta: reconhecer o que já se sabe, declarar o que ainda não se sabe e avaliar cada intervenção pelo mesmo critério de segurança, evidência e integridade esportiva.
É uma posição que também orienta o Atleta Cannabis: trocar certezas rápidas por informação útil, sem transformar testemunho em prescrição ou pesquisa inicial em promessa. No fim, a contribuição mais duradoura para o esporte talvez não esteja em uma resposta simples, mas na qualidade das perguntas que atletas, médicos e pesquisadores passam a fazer juntos.
*Esta matéria repercute a entrevista concedida por Fernando Paternostro à Sports Cannabis e publicada pelo Cannabis Monitor. O conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.*
Aviso
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Não constitui diagnóstico, recomendação de produto ou de dosagem. O uso de cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um médico prescritor.Fontes e referências
Quebrar o estigma começa com uma conversa baseada em evidência.
Converse sobre seu casoRelacionados

Cannabis medicinal e AUT: por que receita não basta para o atleta
Entenda quando a Autorização de Uso Terapêutico pode ser necessária e por que receita de cannabis medicinal não garante regularidade antidopagem.


Estudo com atletas de elite revela silêncio sobre cannabis dentro das equipes
Entrevistas com atletas de elite revelam uso de cannabis, medo de julgamento e pouca confiança nas equipes médicas. Entenda o que o estudo realmente mostra.


THC rende suspensão a jogador de basquete: o que atletas precisam entender
Caso Xavier Cooks mostra como o THC pode gerar sanção no esporte e por que atletas precisam entender competição, responsabilidade estrita e AUT.

